Por mais que seja evidente, há muita gente que lida no turismo madeirense que ainda não acredita que o paradigma do visitante é hoje diferente e que os hóspedes que deram fama à ilha estão desaparecendo. Uns pela lei natural da vida, outros porque optaram por coisas novas. Outros interessaram-se, entretanto, pelo mundo além deste encantamento atlântico, e que encontraram nessas paragens o romantismo e a afabilidade que outrora os cativou tanto neste arquipélago. São as ciclos que deveríamos entender e para os quais deveríamos estar preparados. A observação ajuda-me para abordar as novas ofertas de alojamento turístico, que surgem precisamente da evolução dos mercados, das necessidades das pessoas e da evolução dos próprios costumes e hábitos das novas gerações. Quando procuramos uma clientela mais nova, que não dá ao alojamento o valor real que ele merece, que viaja em voos de baixo custo, porque não necessita das comodidades de um avião de linha regular, por considerarem uma despesa supérflua, é natural que devíamos estar preparados para uma procura diferente na hotelaria. Isso parece que não está a acontecer na Madeira. Alguns hoteleiros tradicionais preferiram baixar preços para ganharem também esse segmento de turismo, e deixaram de apostar na promoção nas feiras e de negociar com os operadores que trabalham com o turista que, supostamente e por ter melhor capacidade económica, seria o melhor hóspede para os seus hotéis. Contas feitas, sem papel nem lápis, por quem anda no sector há muitos anos, a Madeira estará a receber semanalmente cerca de um milhar de turistas que não se hospedam em hotéis. A crise imobiliária virou oportunidade para o aluguer de apartamentos, que se faz facilmente na Internet. No rescaldo vêem-se mais restaurantes a trabalhar e com ocupações excelentes, há mais carros de aluguer a circular, há mais excursões vendidas. O caminho não está em barrar os apartamentos que os turistas utilizam. Isso seria uma má leitura do que está a acontecer. A questão está em sabermos trabalhar com esta nova clientela que, contrariamente ao que alguns pretendem fazer crer, não é nociva para o destino. Estes turistas são excelentes propagandistas. Baste ver o que escrevem nas redes sociais. Se queremos ser um destino de luxo, temos de apostar mais longe. É preciso mais dinheiro para gastar, é preciso ir onde estão esses mercados emergentes. Mas não só com mais dinheiro. Com mais produto. Com ambição e profissionalismo. E de resto, para que conste, acho perfeito, os segmentos coexistirem, desde que sejam produtos diferenciados. E há sinais animadores, de que a selecção se faz já, naturalmente, e de que não será preciso adaptar hotéis de luxo a hostels… Saibamos ler os sinais do mercado.
Catanho Fernandes