O Governo que legisla contra a Constituição que jurou fazer cumprir, continua também a governar contra o povo que o elegeu. E estes dois movimentos assinalam, de forma clara, aquele que é o conteúdo programático de um executivo cuja acção se parece cada vez a uma batalha contra o país, não se sabe bem em nome do quê, nem com que fim.
Os resultados que servem de base a todas as decisões tardam em surgir e em lugar deles há uma regressão dos direitos dos cidadãos e dos deveres do Estado. A cada dia que passa ficamos mais pobres, a economia definha e o Estado Social desaparece.
E se alguém, por exemplo os juízes do Tribunal Constitucional, tenta travar a escalada de violência, a resposta é continuar, de imediato, a disparar sobre os mesmos.
A batalha está em campo e faz vítimas todos os dias. Se, por agora, parece que apenas de um lado se situa toda a força e do outro toda a fraqueza, é certo que não será assim para sempre, e o mais lógico é que não seja. Para uma batalha, tal como para o tango, são precisos dois lados e o Governo, na sua escalada de violência, parece estar à espera dessa resposta natural.
Releio, por estes dias, ‘Jerusalém’ de Gonçalo M. Tavares e a sua explicação para o surgimento do horror, associando-o à inactividade, ao estar desocupado, ao não ter emprego. A falta de uma “actividade útil, qualquer que ela seja, é desviada de imediato para o instinto de sobrevivência... ou para o instinto do carrasco”. Toda a reacção violenta estaria assim ligada a esse momento em que já não nos ocupamos com nada, livres para a violência que do nada surge.
Há neste momento em Portugal um exército que se forma no silêncio da estatística e que já não tem nada, ou já nada tem a perder. Um exército de muitos para quem a governação deixou de ter um sentido imediato e muito menos um sentido de futuro. E cito, a propósito, mais uma frase do livro ‘Jerusalém’: “Não precisavam um do outro, pareciam pois preparados, se necessário, para o ódio.”
Não é um incitamento à violência, mas sim uma consequência natural, um mecanismo biológico de resposta, um movimento histórico. Quem governa contra os seus e contra a esperança tem de estar preparado para a reacção, ou então tem de reagir no sentido certo. E, até agora, este governo tem falhado todos o sentidos e, pior do que isso, deixou de fazer sentido para muita gente.