Diz que ninguém é bom juiz em causa própria. E para muitos este será o caso. Mas a única causa que aqui será comum a quem escreve e a quem lê, supõe-se, é a dos valores democráticos, que são universais.

Não vou escrever hoje um manifesto de defesa da minha entidade patronal face aos ataques vis do poder, que tão mal lida com os valores democráticos. Não venho aqui chorar postos de trabalho que se perderam, os nomes que se apagaram, nem os lugares que ficaram vazios.

O tema foi este, de facto, e é-me caro, mas podia ter sido outro. Foi este. Um partido fez um requerimento para ouvir a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) sobre a situação do Jornal da Madeira - e dos apoios que recebe do Governo Regional sem estar obrigado a, por exemplo, um contrato de serviço público - que é viabilizado pela maioria (PSD/CDS), em Lisboa. O PSD-M não esteve lá, mas no Funchal diz logo que a audição aprovada pelo seu partido é ilegal. Apesar disto, apresenta-se em peso (três deputados numa comissão onde não tem efectivos nem suplentes) para a discussão. Até aqui muito bem, ninguém deve ficar à margem do debate e o PSD-M decidiu não deixar por mãos alheias nacionais a defesa da sua bandeira com laivos criminosos (dumping é crime).

Causa-me estranheza, contudo, quando percebo que o debate vai ficar entre madeirenses, com os restantes deputados a recuarem e a não esconderem o embaraço das cenas seguintes. Se estivéssemos no parlamento regional não seria de estranhar, mas foi na Assembleia da República. O número não foi uma ‘coelhice’, foi de um deputado do partido da maioria com responsabilidades, que vestiu a pele (não precisou de adereços), respeitou a voz do dono, teatralizou, assobiou para o lado e usou argumentos de café como: “Deve ser por isto que o PS-M não consegue melhores resultados” e ainda vaticinou, feliz, “que o DIÁRIO vai de derrota em derrota até a derrota final”. O regozijo de quem prevê a morte de um órgão de comunicação social dá-me arrepios, e se não é coisa de quem vive mal com a liberdade, não sei.

A discussão não aconteceu. Não se apresentou um modelo, uma solução, um caminho, nem sequer uma vontade. Resumiu-se a guerrilha, com o PSD-M no papel de atacante, quando poderia ter escolhido tantos caminhos. Os deputados que assistiram suspiraram de alívio, encolheram os ombros, como quem diz “foi mais uma coisa de madeirenses”. Mas não. Há valores universais, já as responsabilidades nesta matéria são apenas de alguns, mesmo que se demitam, que deixem andar.

Há causas que são de todos, assim como é de todos o dinheiro que o Governo Regional gasta ao desbarato no JM. Os madeirenses mereciam outra elevação. Quanto ao DIÁRIO e a qualquer órgão de comunicação social que resista (?) a esta asfixia financeira e democrática, a responsabilidade é maior. Porque é de cidadania e de educação que se trata. E a avaliar pelo comportamento de alguns deputados que representam a Madeira dentro e fora de portas, há tantos anos, a Região precisa disso como de pão para a boca. E de refrescar muito mais que os estatutos editoriais das suas publicações.