Num quadro de profundas alterações laborais, económicas e sociais, é fundamental dotar os serviços de saúde no geral e a enfermagem em particular dos instrumentos necessários à concretização do seu propósito fundamental, promover a qualidade e a segurança dos serviços públicos de saúde, melhorando o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde.

Neste sentido o terceiro fórum global sobre os recursos humanos para a saúde, reunido no Recife, Brasil no passado mês de novembro produziu um importante documento que alerta os responsáveis para a perigosa escassez de profissionais de saúde nas próximas décadas. Os governos deverão fazer um balanço da evolução verificada desde o segundo fórum em 2011, de forma a identificarem os problemas e os desafios do setor, no sentido de que a cobertura universal de serviços de saúde, se baseie em dados objetivos fornecidos pela pesquisa e evidência cientifica, interagindo com programas de saúde pública, ensaios clínicos e politicas de saúde que permitam traçar o rumo na busca dos melhores resultados em saúde e na redução da pobreza.

Em 2006, a OMS constatou que em muitos países, perto de 80% dos serviços de saúde eram prestados por enfermeiros e que a carência destes profissionais era cada vez mais sentida, perante uma crescente procura de cuidados de enfermagem. Nos países desenvolvidos a situação era considerada dramática devida à carência crónica de profissionais, que emigravam à procura de melhores condições de trabalho e qualidade de vida, fugindo às restrições financeiras e às precárias condições de trabalho nos países de origem.

A carência de enfermeiros desmorona a função e os objetivos de qualquer sistema de saúde, impedindo uma adequada satisfação das necessidades em saúde dos cidadãos, ao ponto de em 2006 a OMS ter considerado a carência de enfermeiros como um objetivo prioritário da sua ação.

Nesta sequência também se pronunciou o Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) ao propor esta temática para as comemorações do dia Internacional do Enfermeiros em 2007.

A crise nos serviços de saúde, tem múltiplos e complexos motivos, mas a evidencia demonstra que as cargas horárias prolongadas, difíceis relações interprofissionais, o contacto permanente com o sofrimento/morte, a total ausência de reconhecimento por parte dos superiores hierárquicos do trabalho desenvolvido, o risco e a penosidade a que os enfermeiros estão sujeitos, aumentam a suscetibilidade do erro e dos acidentes, afetando as relações interpessoais, promovendo ambientes de trabalho pouco saudáveis, aumentando a insatisfação profissional, com consequentes danos na saúde física e psíquica dos profissionais, prejudicando a qualidade e a segurança dos cuidados prestados.

Dai ser nefasta, esta política de restrição na admissão de novos profissionais de enfermagem, posta em prática ao longo dos últimos anos pelo SESARAM, assim como é inadmissível o clima de intimidação, repressão, perseguição e medo, criado em muitos serviços, considerando os responsáveis que com isto, calam os enfermeiros, impedindo-os de denunciarem e de se manifestarem contra estas situações.

Estudos recentes evidenciam a utilidade da satisfação dos profissionais no local de trabalho e a importância que isto tem como fator decisivo para a vida do profissional e da organização, influenciando de forma decisiva e positiva os resultados da organização. Por se tratar de um serviço público é desprestigiante a forma como o Serviço Regional de Saúde trata os seus profissionais.

A forma intempestiva como implementou a recente alteração á duração do período normal de trabalho, esquecendo a conciliação entre a atividade profissional, a vida familiar e pessoal dos seus trabalhadores é o mais recente exemplo desse tratamento. A todos os leitores do Diário de Noticias um feliz natal e um bom ano 2014.

Juan Carvalho