A. Fraga Todos os anos é tradição ir à cidade com a família, ver as luzes, dar um passeio pela baixa, sentir o espírito de Natal e aproveitar para ir a um restaurante jantar fora todos juntos. Este fim-de-semana último não foi excepção e rumei ao Funchal. O espectáculo das luzes de Natal é sempre magnífico, ver aquilo como se fosse novidade e o fumo das castanhas assadas no cais é sempre nostálgico. Então agora, e nestes últimos anos, quando chegamos à Avenida Arriaga está sempre lotada, gente de um lado para outro, barracas com artesanato, flores, frutas, comes e bebes. É Natal! Os adultos descontraem e as crianças divertem-se… No largo da Restauração, o presépio, com animais verdadeiros, sempre engraçado e uma barraca com mesas e cadeiras, sopa à moda antiga, bolos do caco gigantes e vinho. Não é tarde nem é cedo: sentamo-nos ali todos e jantámos, fartos! Mas claro, acabando por ir aos licores e às broas! Mas o passeio não acabou… Com a barriga cheia e tamanha alegria, fomos ver o resto da cidade. Ao chegar ao pé da Sé, ainda havia música ao vivo mas, ao nos aproximarmos das ruas abaixo da Sé, notamos uma certa calmaria e rumamos para Norte. Pior ainda… Rua dos Ferreiros, Ruas das Queimadas, Bispo, Carreira, etc. Lojas abertas, restaurantes às moscas, empregados especados que nem estátuas de cera, um deserto autêntico, quase como um recolher obrigatório em tempo de guerra... Um contraste bem triste para com o que se passava ali mesmo ao lado, na placa central. Lembrei-me logo: «nós já estamos jantados: sopa, bolo do caco, vinho, licores…» enquanto olhava os desgraçados dos restaurantes vazios, onde em tempos eu jantava no Natal com a minha família. Ocorreu-me as declarações da Secretária do Turismo, a Sra. Estudante, na RTP Madeira, que os eventos na placa central são um sucesso, uma alegria e estavam para ficar! Mas afinal, essa alegria do Natal não é bem assim… Enquanto nos divertimos na Av. Arriaga, há muita gente infeliz, com rendas, funcionários e impostos por pagar, ainda por cima abertos aos sábados e domingos, quase que por imposição moral da Câmara Municipal / ACIF, uma situação de contrassenso parecendo quase como uma vingança de prato frio: «Vocês têm que abrir o negócio, dar vida à cidade! Mas o movimento e alegria ficam só pela Av. Arriaga. Vocês ficam a ver a banda passar...» Enfim, após este momento menos bom à vista e à consciência, voltamos para a placa central, obviamente, onde está o espírito e o divertimento. Parecia que estávamos a mudar de dimensão, como que numa realidade paralela… Não deixei de pensar nestes dois mundos tão diferentes, um ao lado do outro. Parece-me que os nossos governantes ainda têm muito que aprender… Deviam passear pela cidade, toda a cidade, de vez em quando, sem comitivas e sem holofotes… Para verem o que se passa. Resta-me desejar um Feliz Natal a todos e, àqueles que passam por dificuldades, esperar que melhore!