O Natal é o tempo em que se instituem tréguas nas agruras de 365 dias de aflição. Com mais ou menos preocupações lá seguimos, meio protegidos pelos cânticos que soam pela cidade, pelas cores e luzes e pelos rituais das tradições, procurando afastar todas as tristezas. Pelas crianças, pela família, pelos amigos libertamo-nos, pelo menos por instantes, da ansiedade que marca o quotidiano no resto do ano. Celebra-se a amizade e, por isso, multiplicam-se os gestos de boa vontade e solidariedade, dá-se forma ao espírito da Festa. E no entanto ou talvez por isso mesmo, este Natal tornou-se num tempo de violentas contradições, é o momento em que a mensagem que celebramos contrasta com a realidade em que vivemos. Talvez, nunca tenha sido tão urgente distinguir o verdadeiro significado do Natal da artificialidade em que o cumprimento do calendário da sociedade de consumo o quis tornar. É esse o risco que corremos, o de pactuarmos com o artifício, limitando-nos a cumprir o calendário e não prolongando para além de Janeiro, o esforço de suspender a miséria, a solidão, as mágoas e os ressentimentos, tudo o que queremos ver longe da mesa da consoada. Solidariedade, Justiça e Dignidade são imperativos do Natal que só têm sentido se forem para lá das iniciativas cheias de boas intenções que se promovem nesta quadra. Tornar o Natal dos que sofrem numa época menos triste e só, aliviando a fome e a pobreza são gestos cheios de mérito, porém, inconsequentes se com eles não lhes dermos voz e rosto. Se ficarem só pela “solidariedade sazonal” tornam-se até cúmplices do crime que lhes deu origem. Cabazes, arredondamentos e descontos não resolvem as injustiças, antes as confirmam e mantêm. A indignação, a revolta e a denúncia, a resistência e a luta firmes contra a opressão e tirania, o empenho na construção de um mundo mais fraterno e de paz não são estranhos à celebração do nascimento do Menino, bem pelo contrário, são a sua expressão mais autêntica e podem e devem ser a Festa que os homens e as mulheres de boa vontade anunciam. Que no próximo ano, todos os dias sejam Natal!
Isabel Cardoso