Como se tem podido verificar nos últimos dias as ilhas estão muito vulneráveis aos ventos e tempestades que afectam o mar. Tendo a costa sul da Madeira um declive menos acentuado, tempestades do quadrante sul podem ‘galgar’ mais facilmente esta zona costeira, quando comparada com as abruptas arribas do norte da ilha. Temos autênticas ‘paredes naturais’ formadas a norte que nos proporcionou o efeito da erosão de milhares de anos provocada pela predominância dos ventos alísios. Esta assimetria (norte-sul) é visível nas vistas do miradouro do Caniçal onde podemos simultaneamente vislumbrar a costa norte e sul (olhando para oeste). Hoje em dia existe tecnologia disponível que nos permite monitorizar o estado do mar e os ventos até uma distância de 200 km da nossa costa. Ondas, correntes, ventos, trafego marítimo e até tsunamis podem ser monitorizados a partir de terra com sistemas que emitem um sinal de rádio (HF) que vão para além da nossa linha do horizonte. Podemos monitorizar permanentemente o que se passa no mar com este sinal que é refletido pelas ondas e captado por sistemas em terra. Esta informação preciosa pode servir para gerarmos avisos atempados e efetuar os preparativos adequados para responder a ameaças. Quando combinados com os dados de satélite e com modelos que nos proporcionam os sistemas modernos de previsão meteo-oceanográfica, podemos antecipar episódios com alguns dias no caso de tempestades, e com algumas horas no caso de tsunamis. Eu constatei o funcionamento desta tecnologia in loco durante um período de tempo que dei aulas aos alunos da UCLA no Hawaii (2000-2001). A Universidade do Hawaii tem um grupo de ‘Oceanografia por Rádio’ liderado pelo Professor Pierre Flament que é uma referência mundial na utilização e desenvolvimento desta tecnologia. Hoje em dia estes sistemas, que eram ‘classificados’ exclusivamente para uso militar no período da ‘guerra fria’, são comercializados e estão montados por toda a costa dos Estados Unidos, pelo Norte da Europa e no Mediterrâneo. Os sistemas evoluíram muito e agora é possível instalarmos várias estações móveis a custos relativamente baixos (200-300 mil euros), e que funcionam de forma automática. Entusiasmado com o potencial desta tecnologia para a Madeira eu (ingenuamente reconheço) na primeira oportunidade proporcionada com a minha visita natalícia, propus ao Governo Regional que, em colaboração com a Universidade do Hawaii, podíamos entrar nesta área para nos afirmarmos como líderes. Reuni uma equipa composta por especialistas internacionais e fizemos uma proposta formal em colaboração com uma empresa regional, denominada como MOPCOM - MONITORIZAÇÃO E PREVISÃO DAS CONDIÇÕES OCEANOGRÁFICAS NA ORLA MARÍTIMA DA RAM. Sem a influência de tios, primos ou padrinhos a proposta veio recusada. Lembro-me que a principal preocupação de um Diretor Regional de então era com o montante que tínhamos adstrito para recursos humanos na proposta. Chocado com tamanha ‘mesquinhez’ (sua Excelência deveria ter um salário equivalente ou superior ao solicitado), faço notar nunca ter tido oportunidade para explicar que o colega do Hawaii tinha-nos avisado que precisávamos de formar e manter uma equipa de técnicos especialistas para o efeito. É certo também que com o ‘histerismo’ da construção esquecemo-nos de viabilizar a sustentabilidade das infraestruturas costeiras a longo prazo, aquilo que é hoje designado como ‘desenvolvimento sustentável’ ou o ‘desenvolvimento inteligente’ não fazia parte do discurso político da época. Enfim, é história...mas a história remete-nos para o futuro! Apesar de termos perdido a oportunidade de sermos líderes mundiais na implementação desta tecnologia na Madeira, e se já tivermos perdido os preconceitos de que cientistas e técnicos de calibre internacional podem ter salários equivalentes aqueles que usufruem os nossos deputados, ainda vamos a tempo de podermos monitorizar muito para além da linha do horizonte, proporcionando à população informação de qualidade para poder reagir em caso de tempestade no mar. Sem informação de qualidade é muito difícil tomarmos decisões fidedignas e vamos continuar sem perceber como melhor reagir às adversidades ambientais. Temo que com o passar dos anos, falsos alertas ou pouca informação levem a população a perder a credibilidade nas previsões meteo-oceanográficas, com potenciais consequências devastadoras, no caso da ocorrência de fenómenos extremos. Precisamos de saber como reagir, e para isso necessitamos de ter acesso a informação de qualidade, e precisamos de acreditar que por detrás desta informação e destes alertas estão equipas de reconhecido mérito. Urge habilitar a Região de sistemas de monitorização permanente de forma a proteger o futuro das gerações vindouras, se não fizemos por nós pelo menos façamos pelos nossos filhos! * Investigador e Docente Universitário
Rui Caldeira *