Da contagem de espingardas em que se transformaram as contendas partidárias à ameaça da invasão policial da sede de Gaula, passando pelo ‘Etna’ em que já se transformou o grupo parlamentar na Assembleia Legislativa - de tudo se tem visto num partido que, até há bem pouco tempo, insistia em se apresentar como forte, coeso, cimentado em maiorias absolutas e alicerçado na vontade popular. Habituado a ser poder único, a ter dinheiro a rodos para todas as loucuras e gastos, num reinado de prepotência e total desprezo por valores que não são os seus, esse partido não sabe viver de outro modo. Já disse várias vezes que o que se passa no interior do PSD-M não me interessa nada, excepto na parte em que penaliza, e não por pouco, a vida dos habitantes da Região. Acumulam-se os factores negativos na pobreza social e nas desigualdades, na saúde, na educação, na emigração, nos salários mais baixos do país, no aumento dos sem-abrigo, no desemprego, na falência das actividades empresariais, nas sempre adiadas respostas ao 20 de Fevereiro - ao que a Quinta Vigia ‘responde’ com uma espécie de governação do vazio e com a mediocridade política, obsessiva, desnorteada e quase paranóica do seu inquilino. Perder 7 câmaras, em 11, é muito? É, mas aconteceu a 29 de Setembro último e o que deveria ser relativamente normal em consequência de umas eleições, passou a corpo estranho! O PSD não tem a mínima noção do que é o respeito pelos resultados e não sabe viver sem o poder infinito a que estava habituado. Todos são difíceis, mas o espinho mais duro de engolir é, sem dúvida, a câmara do Funchal. E é-o por várias razões de que se destacam duas: porque é a capital da Região e símbolo do poder, e o facto de acontecer com um candidato inequivocamente apoiado por Jardim - o que, como já se suspeitava, comprova que quem ganhava o Funchal não era Jardim mas Albuquerque. E isto não se engole - sobretudo em contexto de disputa interna! É por isso que o Funchal terá todas as baterias apontadas para uma penalização indirecta à cidade, através da tentativa directa de deitar abaixo os vencedores de Setembro. Como já se está a ver nos episódios das ordens à Empresa de Electricidade, da cretinice do Jardim de Santa Luzia, ou das posições sobre o IMI e o IRS - todos a merecer repúdio inequívoco e sonante. Estou convencida que a equipa vencedora da autarquia do Funchal terá a vida bem difícil - não porque tenha que lidar com uma situação financeira dificílima ou confrontar-se com diferentes projectos ou soluções da oposição, mas porque tem pela frente oposições que muitas vezes aparentam não distinguir o adversário principal e se têm vindo a revelar objectivamente apostadas em criar sucessivos obstáculos ao funcionamento da câmara sem que, entretanto, revelem uma idêntica acutilância em outras matérias da inteira responsabilidade governamental. Das oposições, exigiam-se também posições incisivas e claras, aprovadas em reunião de Câmara e a enviar ao Governo, sobre o inexplicável adiamento do Ecoparque marinho do Funchal, projecto com 12 anos; o abandono do Funchal como cidade virada ao mar e turística; as consequências da inexistência do Plano da Orla Costeira (os POOCs foram suspensos há 13 anos e desde então, apesar das mentiras sucessivas de todo o Governo, o litoral foi usurpado e intervencionado sem regras); a inconsciente e estúpida vingança da regionalização das principais ruas do Funchal: não se pode gerir a cidade quando - desde a rotunda Sá Carneiro, ribeira de São João, rotunda do hospital, até ao nó do Pilar e nas paralelas às ribeiras de Santa Luzia e de João Gomes, respectivamente desde o Vasco Gil e o nó da Pestana Júnior, até à praça da Autonomia - a autarquia não tem capacidade de intervenção; como é que é admissível que a revisão do Plano Director não avance porque ninguém sabe como descalçar a bota de conjugar estradas regionais com património em meio urbano? Os resultados eleitorais autárquicos trouxeram-me à memória os resultados do referendo em Timor para a independência. E se então temi pelo que pudesse acontecer (e que aconteceu) nesse país, também em Setembro me perguntei E agora? Agora, o cerco está a montar-se para o ataque às câmaras. Mas, como em Timor, tenho a certeza que, passo a passo, havemos de ter conseguir levar a bom porto a vida democrática na Região.

Violante Saramago Matos