Ar, ar, vou procurar ar, ar no tempo, no espaço, na minha cabeça, é assim que vou poder continuar. É o mesmo, a voz enfraquece, é a primeira vez, não, eu sei o que é, chegou mesmo a calar-se, muitas vezes, é assim que isto vai terminar mais uma vez, calar-me-ei, por não ter ar, e depois o ar voltará e eu recomeçarei..A minha voz. A voz. Sim, ouço-a menos bem. Sei bem o que isso é. Vai calar-se. Vou deixar de a ouvir. Vou calar-me. Calar-me é deixar de ouvir a voz. O que significa que continuarei a ouvi-la, ouvindo bem. Ouvirei bem. Trémula, débil, continuarei a ouvi-la, ininteligível, ouvindo bem. Calar-me é ouvir o que ela diz. Depois aumentará, como um fogo que se reaviva, um fogo que se apaga, foi alguém que me explicou, e eu emergirei do silêncio. O meu silêncio é ouvir mal demais para poder falar. Isso significa que continuo a falar, mas por vezes demasiado baixo, demasiado longe de mim, para mim, para me ouvir, não, o que eu queria dizer era: para compreender. O que não significa que alguma vez me compreenda. A voz afasta-se, volta a entrar, vou calar-me, ficar atrás da porta, vai fazer-se silêncio, aquele que já não terei de romper, em que já não terei de ouvir, em que poderei ficar espantado no meu canto, desatinado, inerte, o silêncio que tentei conquistar. Não conto com isso. Vou parar, ou seja, vou parecer que estou parado, e será como tudo o resto. Como se alguém olhasse para mim! Como se fosse eu! Será o mesmo silêncio de sempre, atravessado por murmúrios infelizes, arquejos, lamentos incompreensíveis, à mistura com risos, silêncios breves, como de alguém que foi enterrado cedo de mais. Durará o tempo que durar. Depois recomeçarei, ressuscitarei. Aí está o que terei ganho com tanto trabalho. A não ser que desta vez seja finalmente o silêncio verdadeiro. Talvez tenha dito o que devia ser dito, o que me dá o direito de me calar, deixar de ouvir, deixar de escutar, sem saber. Já estou a ouvir, já começo a calar-me. Na próxima vez não terei tanto trabalho, contarei uma velha história, uma qualquer, são tão parecidas, sem me cansar, deixarei de me preocupar comigo, saberei que diga o que disser o resultado será o mesmo, que nunca me calarei, nunca terei paz. A não ser que tente mais uma vez, uma última vez, dizer o que deve ser dito, acerca de mim, sinto que é acerca de mim, talvez seja esse o meu erro, para não ter mais nada a dizer, mais nada a ouvir, antes de estar morto. A voz regressa. Fico contente. Vou experimentar já. Experimentar o quê. Não sei. Continuar. Agora não há ninguém. Ora aí está uma boa continuação. É embaraçoso não haver ninguém, se tivesse memória talvez soubesse que é o final do fim, da pausa que pode ser verdadeira, a última, já não ter ninguém, ninguém de quem falar, ninguém que fale connosco, ter de dizer: « Sou eu que crio esta vida para mim mesmo, sou eu que falo de mim…». Então, falta-nos o ar, é o princípio do fim, calamo-nos, é o fim, não é nenhum fim, recomeçamos, já nos esquecemos, há alguém, alguém que nos fala, de nós, deles, só tenho de ouvir, depois vão-se embora, um a um, calam-se, um a um, e a voz continua, não é a voz deles, eles nunca vieram, nunca houve ninguém, ninguém a não ser nós, a falar-nos de nós, falta-nos o ar, é quase o fim, a respiração pára, é o fim, não é fim nenhum, ouço-me chamar, tudo recomeça, deve ser assim, se eu tivesse memória.
Se ao menos houvesse coisas, uma coisa num sítio qualquer, um pedaço de natureza, de que se pudesse falar, mesmo sem a ver, mesmo sem se saber o que é, senti-la apenas ali, num sítio qualquer, talvez tivéssemos coragem para não nos calarmos, não, para nos calarmos é preciso ter coragem, porque seremos castigados por nos termos calado, sermos castigados por termos sido castigados, porque se volta ao mesmo, falta-nos o ar, se ao menos houvesse uma coisa, pois é, mas não há, foram eles que ao partirem levaram as coisas, levaram a natureza, nunca houve ninguém, nunca houve nada, ninguém a não ser eu, nada a não ser eu, a falar comigo de mim, é impossível parar, impossível continuar, sem ninguém, sem nada, só eu, só a minha voz, quer dizer que vou parar, vou acabar, é já o fim, o fim que começa, que nunca será nenhum fim, o que será, um pequeno orifício. Descemos por ele, e há silêncio, pior do que o ruído, ouvimos, é pior do que falar, não, pior não, o mesmo, esperamos, ansiosos, ter-se-ão esquecido de mim, sim, não, chamo, chamam-me, volto a sair, o que é, um pequeno orifício, no deserto. O pior é o fim, não o pior é o começo, depois o meio, depois o fim, no fim o pior é o fim, esta voz que, o pior é cada instante, tudo isto se passa no tempo, os segundos passam, uns a seguir aos outros, aos solavancos, não flúem, os segundos não passam, chegam, zás, trás, pás, entram em nós, fazem ricochete, deixam de mexer, quando não se sabe o que se há-de dizer fala-se do tempo, dos segundos, há quem os junte uns aos outros e faça deles uma vida, eu não posso, cada segundo é o primeiro, não, o segundo, ou o terceiro, tenho três segundos, e mesmo assim, não é todos os dias. Gostaria de me ter calado antes, havia momentos em que julgava que a minha recompensa por ter falado com tanta coragem era entrar ainda vivo no silêncio, para poder saboreá-lo, não, não sei porquê, para me sentir que me calava, unido a todo esse ar que só eu agito desde sempre, não, não é ar verdadeiro, não posso dizer porque é que gostaria de me calar antes de estar morto, para finalmente o que sempre fui e nunca pude ser, sem receio de pior ainda tranquilamente no lugar onde estive sempre e nunca pude repousar, não, não sei, só sei que é mais simples.
Renata Camacho