Faço parte da geração que fez da natação o desporto da infância. Iniciei-me na piscina da Escola Secundária Francisco Franco. Tinha um amigo, companheiro da mesma lide, que levava uma bola e antes de entrarmos na água conseguíamos recrutar sempre um grupo de miúdos para um breve desafio de futebol, num dos campos da escola. Esse meu amigo não gostava de perder – aos 10/11 anos ninguém alinha na famigerada máxima de que “ganhar e perder é desporto” – e sempre que via o seu jogo em risco, com a bola a entrar demasiadas vezes na sua baliza, pegava no esférico enfiava-o dentro da bolsa da natação e rumava ao balneário para vestir o calção de banho. Eu e os outros comparsas fartávamo-nos de protestar, de discutir, mas aquele amigo não aguentava que lhe infligíssemos uma derrota, até porque era ele o dono da bola.
Recordei-me deste episódio engraçado em analogia com o comportamento do PSD/Madeira e do seu líder após as eleições autárquicas.
Todos os dias assistimos a tomadas de posição semelhantes à dos maus perdedores, penosamente ressabiados. Desde setembro passado notícias diárias mostram-nos a verdadeira face da ação do governo regional em relação aos que não alinharam com o seu querer.
Só que a realidade agora é outra. Os tempos estão a mudar e o povo que votou no projeto que liderou a ilha, não sabia que estava a hipotecar o seu futuro com uma dívida monstruosa, contraída para segurar o eleitorado ao redor de muitas realizações de duvidosa utilidade, e que serviu também para alimentar “filhos e enteados “de um regime que se tornou tentacular.
Esse mesmo povo, garantidamente mais instruído que há 30 anos atrás, levantou o sobrolho e viu que, afinal, a fatura a pagar comprometeu-lhe a vida, é causadora de desemprego e provoca miséria social.
Pior, tem constatado que o “dono da bola” é um perdedor impiedoso, que não olha a meios para atingir os seu fins, persistindo na caminhada de intoxicar a opinião pública a seu favor, baralhando dados e conceitos, com o objetivo de denegrir todos os que não lhe seguem os passos, nem lhe dizem ámen, perpetuando-se num estado de negação deplorável.
Esse povo que maioritariamente lê jornais, vê e ouve notícias veiculadas pela imprensa livre não se vai deixar mais ludibriar, nem enredar-se em falsas promessas. O senhor governo que lhe pergunte se, em nome de uma pluralidade informativa deturpada e escandalosamente manipulada em prol de caprichos pessoais, concorda com a existência de um jornal que custa milhares de euros por dia ao erário público? Não serão precisos muitos estudos de mercado para concluirmos que poucos aceitariam a continuação de um produto de mera propaganda.
Enquanto se mantém esta imagem negativa para a Região assistimos ao espetáculo circense de “guerra entre o alecrim e manjerona”, a intrigas palacianas de delfins, ex-delfins e candidatos a delfins do líder, que por sua vez se vai entretendo a emitir comunicados oficiais em catadupa, atacando pessoas e instituições, tentando justificar o injustificável, num festival de palavras desabridas, fazendo condicionar o acesso à informação pública, limpa e esclarecida.
Enganem-se os que julgam ser uma certeza que o futuro da Madeira continuará inevitavelmente nas mãos do PSD, mesmo que liderado por outra personalidade que lhe imprima frescura democrática. Os que se perfilham estão ligados, para o bem e para o mal, ao atual regime.
Os partidos da oposição e os movimentos de cidadãos (essencialmente estes) vão ter um papel determinante no xadrez político futuro da Região. Os compromissos que forem capazes de alcançar serão decisivos na próxima disputa eleitoral.
Roberto Ferreira