Porque é que diante da catástrofe que são as medidas políticas regionais e nacionais que todos os dias agravam a pobreza e aumentam a insegurança, a maioria dos madeirenses se limita ao queixume? O que explica que a lúcida crítica à prepotência e arrogância dos governantes regionais, feita em círculos de amigos e colegas, não se faça ouvir no protesto colectivo? O que está por detrás deste aparente conformismo fatalista que prende cada um aos seus gestos quotidianos mesmo quando já neles não pode espelhar a dignidade e a liberdade que são devidas a cada ser humano? O que sustenta este silêncio esmagador, esta solidão em que cada um se encerra que têm marcado o comportamento da maioria? O que nos cala e constrange tornando-nos um povo fácil, muito fácil, de ser governado?

A entrevista dada pelo presidente do governo regional, num destes dias à televisão nacional, ofereceu algumas pistas. Foi um “tempo de antena” para cimentar a convicção de que a nau sem rumo prossegue o seu caminho para o abismo.

Já não são só as trapalhadas dos “swaps” da ministra das finanças, as inconveniências diplomáticas do ministro Machete, as afirmações imorais de Crato, os negócios nada claros de submarinos e afins, as ligações ocultas a sociedades financeiras sediadas em paraísos fiscais, as calamitosas medidas no OE, o guião de reforma do Estado, a ingerência estrangeira ou as tentativas de intimidação ao Tribunal Constitucional, são os factos que todos os dias vamos conhecendo, sobretudo nas páginas deste DN- Madeira, acerca de calotes e perdões, de favorecimentos e negócios escuros, de violações da lei, de comportamentos públicos indevidos, de ajustes de contas mafiosos que se fazem nas “nossas barbas”. O comum dos mortais parece sentir-se mais confortável na sua indignação e revolta limitando-se a fazer piadas com a realidade e a encarar cada novo episódio caricato como uma oportunidade para se sentir superior e corajoso mas sem qualquer efeito prático para pôr fim à loucura em que vivemos. O futuro imediato não se compraz com esses mecanismos de falsa sobrevivência, é tempo de exigir o fim desta barbárie. Vamos continuar a encolher os ombros?

Isabel Cardoso