Pela primeira vez eu, como muito mais gente, posso dizer que o presidente da autarquia onde moro é o meu presidente. É uma sensação diferente e saudável que, seguramente, anima todos aqueles para quem os valores e princípios da democracia são a base para uma sociedade mais justa.
Estas eleições autárquicas não provocaram só a ‘simples’ substituição de presidentes, vereadores e deputados municipais; são muito mais como, de resto, se pode perceber pelos conflitos e estratégias desesperadas no interior do partido derrotado que, ainda que já apresentasse sinais que a podridão negra tinha atingido a fortaleza jardinista, tende a desabar agora com estrondo e estardalhaço. E se estou convencida que o baile dos ratos a abandonar o navio só agora começou, também não acredito, e só a título de exemplo, no amuo do deputado José Pedro Pereira a quem reconheço, antes, o papel de ponta de lança numa qualquer jogada.
O que aconteceu a 29 de Setembro é que, e concretamente no Funchal, um cidadão com uma carreira profissional estabilizada e sem filiação partidária foi capaz de formar uma equipa, construir uma plataforma de unidade e de trabalho, elaborar um programa, travar uma campanha digna e sóbria, manter uma atitude de empatia, confiança e convicção e chegar ao fim vitorioso. Foi, também, o pilar à volta do qual se comprometeram e se envolveram seis partidos que, também pela primeira vez, parece que perceberam que na actividade política - e se a queremos ao serviço da comunidade - é preciso saber quem é o adversário principal. Não o fazer acaba por comprometer o exercício pleno dos direitos e deveres cívicos, como demasiadas vezes se tem visto nesta terra; não o fazer, e acantonar-se em estratégias e objectivos puramente partidários, é que tem contribuído objectivamente para a consolidação do poder jardinista.
Mas estes resultados têm também um significado enorme e uma responsabilidade acrescida para todos - para quem foi eleito mas também para os eleitores.
Aos eleitos exige-se que não nos desiludam e que assumam um comportamento que enterre vícios e influências, compadrios e suspeitas de corrupção, prepotências e arbitrariedades; uma postura que eleja a equidade, a seriedade, a responsabilidade, a ética, a transparência, a tolerância e o respeito; uma visão de futuro para criar uma relação de proximidade e abertura para com os munícipes, que permita dar corpo a um consistente projecto e a um inovador modelo de desenvolvimento de que o Funchal precisa.
Aos eleitores não se lhes pede muito menos. Durante todo este tempo em que a Câmara foi dirigida por equipas acoitadas e submissas ao regime jardinista (a recente ‘rebeldia’ de Albuquerque assenta mais numa estratégia de luta pelo poder interno que em outra coisa qualquer), os munícipes foram sempre uma presença incómoda. Durante todos estes anos, procuraram sempre que nos afastássemos cada vez mais, que nos abstraíssemos da vida em comum, que deixássemos de tomar parte na discussão pelo futuro da nossa cidade. A muitos amarraram pelo medo, ameaçaram subtilmente com a perca de emprego, compraram o silêncio pelo bem-estar de filhos e familiares.
Agora, tudo tem que ser diferente. É da nossa inteira responsabilidade tornarmo-nos cidadãos participativos, cumpridores de direitos e deveres, exigentes pelo bom exercício do poder autárquico mas, também, agentes de mudança e contribuindo para uma nova vida da cidade. Na noite das eleições, vi muita gente na sede de campanha da “Mudança”. Muitos sem hesitar expressavam a sua alegria e satisfação, mas outros passavam a olhar ainda com algum receio - fizeram-me lembrar aqueles pássaros que mantemos muito tempo engaiolados e que um dia, quando decidimos abrir-lhes a porta, continuam temerosos no fundo da gaiola a ganhar confiança. Até que, finalmente, sairão. Com as pessoas acontece o mesmo.
Na próxima 2ª feira, Paulo Cafofo tomará posse como presidente da Câmara do Funchal. Nos seus ombros assentará, em grande parte, a gigantesca tarefa de mudar o Funchal. Mas não pode, nem deve, estar sozinho. A nós compete-nos fazer, de forma empenhada e participativa, a nossa parte.
Violante Saramago Matos