Afinal há ricos com salários brutos de 600 euros. Essa é uma das brutalidades que o Governo de Passos Coelho nos revela com aquela proposta de Orçamento de Estado ontem apresentada ao país. Só um governo disposto a promover o miserabilismo social pode permitir esta monstruosidade cega de começar a cortar 2,5% a funcionários que o próprio governo gere em regime de ‘low cost’. Só uma visão financeira crua e redutora pode almejar poupar a factura salarial do Estado com aqueles a quem o próprio Estado não está disposto a pagar muito mais do que o salário mínimo. Só a miopia política poderia atribuir uma sentença de culpa com redução remuneratória imediata naqueles trabalhadores que nem têm voz ao nível das responsabilidades administrativas e de gestão, que aparecem no final de uma cadeia fortemente hierarquizada da função pública onde proliferam chefes de ninguém submissos, quadros excedentários e dirigentes altamente corruptíveis e imunes à justiça. Só reformas da despesa pública alheadas da realidade podem permitir que se penalize quem trabalha a cumprir ordens para, em troca, receber uma miséria suficiente para sobreviver e pagar sem atrasos as prestações da casa à banca, a água, a luz e o gás, sem usufruir das isenções, das promoções e de outras confusões explicáveis apenas à luz de uma teia de promiscuidade – incólume à justiça penal e em prejuízo da ‘coisa’ pública – de que beneficiam outros funcionários com peso na folha salarial mas que foram poupados nesta versão de Orçamento de Estado disfarçada de irremediavelmente necessária. Se há cortes para 2,5% a 12% nos salários brutos de 600 a 2 mil euros, substituindo aos 3,5% sobre os salários progressivos acima de 1.500, porque razão os cortes não se aplicam, em igual regra e proporção, aos super-ordenados da administração pública e do sector empresarial do Estado?

O Estado Português continua um despudorado. Um obeso de tanga. Um viciado em maus hábitos. Todos vemos-lhe as gorduras. Há décadas que a doença está diagnosticada em livros, em teses e… em programas de governo. Agora, quanto mais o Estado olha para o espelho, mais insiste em recuperar da forma mais estética e recorrendo a operações baratas de ‘lifting’. Sai uma ruga ou outra. E a banha maciça lá fica compenetrada. Que importa as artroses que o impedem de caminhar se o verniz não estala das unhas dos pés? E que mau andar tem este velho Estado! Passos Coelho recorre à hidromassagem. Vieram as medidas anunciadas em conta-gotas, chumbadas pelo Tribunal Constitucional. Chegam agora os jactos de água gelada sobre quem já vê congelados salários há anos. É a alta pressão para obter liquidez, sacando dinheiro àqueles que menos o Estado está para se chatear: quem menos poder tem. Assim nascem as reformas, dentro de gabinetes à porta fechada sem lugar para especialistas, catedráticos, ex-membros do governo ou outros chatos que lhes valham três segundos da sua autista convicção. Enquanto se desenharam as alíneas deste orçamento, outros negócios paralelos se fechavam entre um esfregar de mãos nos restaurantes da moda. Depois da terapia da hidromassagem ter deixado Portugal num estado de confuso-anestésico, abrem-se os diques da austeridade. Banhada para uns. Água aos moinhos para outros. E o governo vai metendo água.

P.S.: Escrevi este artigo quando a ministra das Finanças ainda nem tinha aberto a boca para explicar ao país aquele arsenal de medidas para cortar 3,9 mil milhões de euros da despesa pública. Há que dar o mérito de, finalmente, o esforço da redução do défice ser feito na óptica da redução da despesa e não da receita fiscal. Mas ceder aos lobis de sempre e dizer que "não há plano B”? Será B de barbárie ou de banalização nos cortes?