Releio um dicionário antigo, de 1945. Nas páginas a que o tempo deu outra cor (ocre, creio) aprendi que 'cor', em latim, quer dizer coração (também como sede da alma, da inteligência, da sensibilidade); ou bom senso; ou pessoa, indivíduo. Não sei de memória o que (ou quem) hoje me conduziu a mão de regresso à página do dicionário (a dissolver-se em leve poeira entre os dedos), mas recordo o desacerto de ter há anos descoberto não saber das cores, de cor, do coração. Naqueles meus verdes anos, procurava uma história ou um pormenor que sossegassem o desconcerto daquela quase cega incerteza. Afinal, antes daquela folha do velho livro encontrado perdido na estante de uma outra casa, uma cor era uma cor: branco, azul, verde, vermelho. (Sinto hoje que mais do que paredes guardadas por portas habitamos lugares de assombro tomados pela insegura dança do que nos aprende; e neles de_moramos.) Numa noite de sono ao abandono, entrecortado, ao abrir os olhos percebi que tinha acabado a emissão da televisão. Levantei-me do sofá e olhámo-nos: eu, perplexa, e, quieta, a mira técnica. Voltei, então, a pensar nas cores. Na cor e no coração incerto no corpo e no sentido da palavra. Diante daquele círculo estranhamente quadriculado reparei no arco de cores de que era feito. Onde o coração? Permanecia o enigma. No dia seguinte passou na televisão um anúncio de rolos de fotografia (no tempo em que as máquinas eram analógicas): rolos de 35 milímetros, com 12, 24 ou 36 exposições, a preto e branco, ou a cores. No gira-discos pareceu-me ouvir Paul Simon: "Kodachrome, they give us those nice bright colors, they give us the greens of summers, makes you think all the world's a sunny day, oh yeah... I got a Nikon camera, I love to photograph..." (1973). Era feliz o instante de impressivamente sentir o obturador a abrir-se e a fechar-se, lento ou célere, em acordo com a ideia inicial de que fotografar é desenhar com luz ('photo'+'graphia'). O slogan do anúncio era "para mais tarde recordar". Repeti, para mim, em silêncio: "recordar". Lembrei-me de palavras parecidas: saber de cor, concordar, discordar, cordial. Era o momento de resolver o enigma. Voltei ao livro antigo, a reaprender: 'cor, cordis' quis dizer, entre romanos, coração, inteligência, sensibilidade, bom senso. Séculos de sabedoria deram a estas três letras a possibilidade de se ampliarem e dizer mais e melhor outras coisas. Para nós, em anatomia, diz-nos o motor que faz circular o sangue; é centro de afeição, de amor; consciência ou memória; coragem e valor. Ou uma 'voz secreta', interior (o coração da cidade como o do corpo que habitamos). Agora tudo fazia sentido: recordar é trazer de novo ao coração; concordar é estar com o nosso coração junto do do outro; discordar é estar afastado das razões de outro. Alguém cordato é sensível. Saber de cor é saber de coração, de memória ("by heart", como bem sabem os Clã: "A língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém"). Mas como do coração à memória? Para me ajudar a resolver este outro enigma descobri uma história que me ensinou o que tem o coração a ver com a memória e com as imagens. Numa das histórias de Cícero conta-se que o poeta Simónides de Ceos cantara, em casa de Scopas, um poema lírico que escrevera em sua honra em que incluíra uma longa passagem dedicada a Castor e a Pollux. Pouco depois chamaram Simónides à porta, porque havia dois jovens que o chamavam. O poeta levantou-se, saiu e não viu ninguém. Nesse momento, um tremor de terra fez a sala ruir e todos os convivas pereceram. E, quando os familiares os quiseram sepultar e não os puderam reconhecer, Simónides, porque se recordou do lugar em que todos tinham ocupado, foi capaz de indicar onde estava cada um e de identificar cada pessoa. Talvez o poeta se tenha lembrado de todos porque os olhou e os levou ao coração. Talvez o poeta tenha ouvido a sua 'voz secreta', por sensibilidade e afeição. Depois de todas as ruínas (as do poeta) ou em pleno verão (o do fotógrafo) - humana ou mecânica -, a memória talvez seja o maior gesto de humanidade. Na ausência real daqueles que amamos, é a memória que desenha com luz, a preto e branco ou a cores, a presença - de cor - do que em nós (e de nós) permanece.
Diana Pimentel, docente universitária