
Se era Super Bock, ou Sagres, admite-se que possa ter sido mais uma conspiração do continente contra a Madeira e a Autonomia, utilizando traidores inqualificáveis e ao serviço da Madeira Velha. Se fosse Vinho Madeira, então, não haveria dúvidas. Mas se foi Coral, a coisa muda de figura e o protesto é genuíno, feito com filhos e produtos da terra.
Também é importante estudar a técnica de arremesso, porque pode estar aí mais uma pista para as reais intenções do banho amarelo que se abateu sobre uma alegre comitiva que até ia festejar o vinho e as vindimas. Se a cerveja foi lançada com copo e tudo, tinha um alvo preciso e o resto foram efeitos colaterais. Agora, se foi espalhada, foi um protesto mais alargado e respingou para todos, pelo menos para os mais próximos do alvo principal. Para os que estão colados ao chefe e procuram aproveitar uma sombra que é cada vez mais reduzida.
Ironias à parte e teorias médicas também - o alvo do banho ditou logo uma patologia psiquiátrica ao seu agressor e sentenciou o crime inédito de bebedeira -, o certo é que a cerveja voou e não foi por acaso. Foi, mesmo, para atingir. Não foi bonito, nem é recomendável - nem com cerveja nem com outra coisa qualquer -, é uma agressão condenável, mesmo que não deixe mais do que uma nódoa num fato fora de moda. Mas foi um protesto. Algo impensável há bem pouco tempo, numa terra em que protestar é sacrilégio, mesmo que seja com uma simples cerveja.
Em pouco tempo, foram bombeiros que assobiaram, povo que faltou às inaugurações e alguém, talvez com uns copos a mais para ganhar coragem, que lavou quem até parecia estar acima da chuva. E foram, também, os protestos dentro da casa partidária de quem tudo manda que, ao fim de mais de 35 anos, vai ter de discutir a liderança. Outro cenário que, há bem pouco tempo, só aparecia nas fantasias dos mais sonhadores.
O Povo Superior rebelou-se, ainda que de forma tímida, mas já bate o pé. Não o faz da maneira mais acertada, com o voto, mas está a aprender. Aos poucos, mas está a aprender.