Faz parte das minhas recordações políticas, uma comparação que ultimamente tem-me assolado com frequência. Tínhamos, na década de noventa do último século, na Península ibérica, dois regimes ditatoriais chefiados por dois líderes que lhes imprimiram um cunho muito pessoal e abrangente. Não se tratava apenas de uma forma de governar, mas antes era uma definição da própria sociedade em termos culturais económicos e até morais. A comparação resulta na diferença do fim dos regimes: em Espanha, o General Franco destinou o País a uma ressuscitada monarquia e logo após a sua morte, o Rei Juan Carlos nomeou para chefe de Governo, Adolfo Suarez, que vindo das fileiras do regime, efectuou, com mestria, a transição para o regime democrático, dando origem à Espanha que hoje conhecemos.
Em Portugal, o afastamento compulsivo do Dr. Salazar levou à nomeação de Marcelo Caetano, antigo Ministro da Presidência e afastado do núcleo duro do regime por ser demasiado liberal. O seu período de 1968 a 1970 ficou então conhecido como a primavera marcelista procurando caracterizar a tentativa de uma certa modernização económica e social e uma liberalização política moderada, criando a expectativa de uma verdadeira reforma do regime. Cedo, porém, as ligações aos fiéis do regime que rapidamente aligeiraram o seu salazarismo em proveito do marcelismo e a questão colonial, com uma guerra para a qual não se conseguiu encontrar soluções pacíficas, fizeram cair as ilusões desse aggiornamento em que inicialmente alguns acreditaram.
É evidente que há causas que justificam o falhanço do marcelismo nesse propósito inicial que convenceu quadros técnicos jovens promissores. Mas há que reconhecer que Adolfo Suarez ou Mikhail Gorbachev não abundam e nem todos são capazes de levar a suaperestroika até ao fim, cedendo a interesses e a compromissos de que não se conseguem libertar.
Vem esta memória a propósito do que se está a passar na Madeira. É certo que não vivemos em ditadura e por isso a comparação é sempre desfasada. Mas não é menos certo que o sistema político madeirense, na medida em que a liderança muito personalizada de um homem, nos últimos trinta e cinco anos, está associada a um tipo de sociedade, de organização económica, de cultura, de valores e de poderes fácticos, configura uma característica de regime político que hoje se reconhece necessitar de uma verdadeira abertura e transformação. Naqueles tempos, como agora, entre nós, foi necessário repensar tudo de novo, agregar pessoas e reunir ideias para perspectivar e consubstanciar um futuro melhor.
Como na literatura de Garcia Marques, haverá na Madeira um Outono do Patriarca que dará lugar a uma primavera política inevitável e promissora. O normal será que essa primavera resulte de eleições disputadas entre partidos e da escolha livre das populações, como acontece em qualquer terra democrática. Há, no entanto, quem, na surdina, vá alimentando essa sucessão própria da Ibéria do século passado, acreditando em providências adequadas a soluções internas de nomeação ou de designação como se a transição tivesse que se fazer dentro da mesma estrutura de poder. Para esses, não há melhor reflexão do que analisar os acontecimentos que a história nos fornece e questionarem-se a si próprios se não existirá aqui algum sonho idêntico ao de outrora, agora convertido em primavera miguelista.
Antes como hoje não basta a escolha de quem conheceu o regime e agora se distancia dele! Outrora, como nos nossos dias, as palavras e as promessas não são suficientes para que a reforma se faça! Fundamental é demonstrar desprendimento dos interesses instalados e a capacidade de agregar novos quadros e acolher novas ideias. Não sendo imprescindível a ruptura, é preciso a demonstração da convicção sincera de querer mudar, muito mais do que confessar propósitos de querer salvar a "honra perdida do convento".
Ricardo Vieira