Decidi redescobrir as nossas ilhas neste Agosto do nosso descontentamento. Os lugares, os recantos, as pessoas que tantas vezes nos passam ao largo no frenesim do trabalho. Apesar de toda as descaracterização da paisagem, do mau planeamento e ordenamento do território, a Madeira e o Porto Santo têm sítios magníficos que vale a pena revisitar ou deitar um primeiro olhar. Ser turista na própria ilha onde se nasceu e, ainda, assim ser surpreendido é fascinante. Aquele amanhecer na Fajã dos Padres a ver o sol nascer sobre o mar límpido num horizonte sem fim; a incursão pelo Chão da Ribeira à procura de umas trutas escondidas na Laurissilva; a vereda redescoberta no silvado entre a Boaventura e a Ponta Delgada a caminho da Festa do Bom Jesus; um arroz de lapas com ventrecha de atum em São Vicente com o Porto Santo ali tão perto; a conversa com os emigrantes que repovoam de vida e alegria o Norte envelhecido e esquecido; gente que volta a abraçar a terra à procura do sustento que a cidade dos governantes lhes retirou; jovens que arriscam na abertura de negócios com conceito e criatividade, procurando escapar ao desemprego e à emigração; velhos que vão ao banco levantar as suas economias para ajudar filhos que o endividamento sufocou; homens e mulheres em desespero porque lhes faltou o salário, o subsídio e o apoio social. Coisas boas e más de um Verão que parece querer prolongar-se. O melhor e o pior das ilhas em retratos a cores, a sépia e a preto e branco. E no fim um furado... um túnel sem fim que leva ao abismo por onde deveria ter passado um viaduto que anunciava o futuro.
Como tudo poderia ter sido diferente se tivesse havido bom senso e responsabilidade! Resta-nos a esperança nas capacidades do nosso povo para reinventar a ilha e voltar a sonhar com o paraíso do Atlântico.
José Manuel Rodrigues, Líder do CDS/PP-M