Neste dia o ecrã da televisão tornou-se estupidamente real. Aquilo que durante dias fui assistindo, pela televisão, noutros locais da ilha da Madeira e continente chegou de forma brutal, violenta e sem piedade de nada nem ninguém, aonde ninguém imaginava. De forma rápida, com o vento ao volante o fogo semeou o pânico de forma impiedosa em Santa Cruz. Em pouco mais de meia hora e com o fogo bem longe, passei de estar a almoçar tranquilamente a ser aconselhado a sair de casa por questões de segurança (a exemplo de muitos, não o fiz). Nunca pensei ver a minha freguesia passar por tamanha provação, ver toda a família, amigos, vizinhos e conhecidos a poucos segundos de nada terem. Da serra ao mar pouco ou nenhum verde ficou, casas plantadas no meio do negro, centenas de animais mortos, trabalho de anos de muitas pessoas reduzido a uma mão cheia de nada. Ver gente a regressar com o coração apertado, à espera de encontrar o pior dos cenários é algo doloroso de se ver. Tive a oportunidade de no próprio dia e seguintes visitar muita gente, é duro ver, é doloroso confortar, complicado encontrar as palavras certas. Neste espaço costumo falar de desporto e as suas contingências e olhem que nos dias de hoje muitos são os temas, mas tudo isso fica tão pequenino depois do que se passou no dia 19 de Julho. Creio que Santa Cruz nunca tinha passado por tamanha provação, maior até do que o 20 de Fevereiro de 2010 (exceptuando a perda de vidas humanas), ver grande parte da população da freguesia em fuga é algo de inexplicável e imaginável. A todos aqueles que defenderam as suas casas e de vizinhos com o que tinham à mão, aos Bombeiros Municipais de Santa Cruz que procuraram forças, físicas e mentais para continuarem quando já estavam de rastos e toda a gente gritava por eles, uma palavra especial à equipa da BIR da PSP, que colaborou na defesa de casas na zona de São Pedro, à PSP, a todas as entidades, públicas e privadas, às várias corporações de bombeiros que vieram em auxilio e aos particulares que no próprio dia e seguintes foram e têm sido inexcedíveis no apoio, o meu público Reconhecimento e um MUITO OBRIGADO! O dia 19 de Julho de 2012 a par do dia 20 de Fevereiro de 2010 em momento algum nos podem tornar mais fracos. A adversidade só nos pode tornar mais fortes e nós somos e seremos sempre, e cada vez mais, fortes. Somos um povo trabalhador e lutador e o amanhã é já ali ao virar do ponteiro.

Duarte Vieira, Advogado