Porque é Agosto, Verão e tudo me lembra a férias, decidi partilhar um pouco da minha relação com o mar e a sua importância ao longo da minha vida. Na infância começou por ser assustador. O mar do norte do país, com as suas ondas gigantescas e fortes, aterrorizava-me. Talvez não fosse mais do que os meus próprios medos que se exprimiam no contacto direto com aquela força e magnitude. Mais tarde, na adolescência, o mar foi o meu suporte afetivo, contentor das minhas angústias. Tantas e tantas vezes corria para a praia de Esmoriz, ao fim de semana, na hora do pôr-do-sol e simplesmente deixava que o mar me acalmasse, e me devolvesse um espírito mais leve e tranquilo. Outras vezes à noite dormia na praia e enrolava os meus sonhos nas ondas que após momentos de cansaço descansavam na areia. Quando acordava e olhava o mar, na sua cor azulada e cintilante, o dia amanhecia também para mim, com as mesmas cores. Sozinha ou em grupo foram tantos os momentos em que senti que nunca conseguiria viver sem o mar por perto. Percebi tão bem a sensação que um senhor de quarenta anos, que sempre viveu numa zona interior, teve quando viu o mar pela primeira vez. Uma emoção tão forte que o levou ao pranto, num choro sentido até às profundezas da sua alma. Quando estudava na faculdade, partilhei com colegas, em momentos especiais, uma casa junto ao mar, que tanto nos ajudou na nossa formação como profissionais e como pessoas. Nessa casa, em Cortegaça, ouvíamos o mar bater nas rochas como se fosse um chamamento ou uma mensagem de vida. Mais tarde vim viver para a Madeira, com toda a gente a chamar-me à atenção para a sensação de sufoco que seria viver rodeada de mar. Nunca tive esse receio. Antes pelo contrário, senti sempre como se fosse um privilégio. E assim é. Viver junto ao mar, poder observá-lo na sua relação com o sol, com a lua, com as estrelas, e tantas, tantas outras belezas que a natureza nos oferece, é mais do que um privilégio, é um presente da Vida. Aprendi a perder o medo de o enfrentar, a mergulhar nas suas águas e a brincar com ele. A apreciar os seus afagos, a sentir a sua textura e a deixar-me simplesmente levar, boiando ao ritmo da sua vontade… O mar é sábio, tem história e conta histórias. Ora revolto, ora brando e suave, alimenta populações e serve de habitat a tantas espécies. Dominá-lo não é para qualquer um. Só para aqueles que aprendem a sua linguagem. Hemingway traduz isso muito bem no seu livro "o velho e o mar". Não basta coragem, é preciso saber estar só sem temer a solidão. O mar é o principio e talvez venha a ser o fim. Mas para já é um parceiro de vida … Devemos preservá-lo por tudo o que nos oferece. Alimento, beleza e energia de vida. O seu potencial é imenso e tantas vezes o ignoramos e usamos, como se fosse apenas mais um instrumento para nosso belo prazer. Neste mundo do uso e abuso, da falta de respeito pelo que é realmente precioso, tendemos a pensar que fomos nós que criamos o mar para nosso próprio beneficio. Mas meus amigos, está na hora de darmos uma oportunidade a nós próprios e aprendermos com os ensinamentos do mar. A vida que nos pertence não é uma linha continua sem oscilações. A isso chama-se ilusão. A vida ora é revolta, ora é branda e suave, e por isso temos que nos manter alerta e preparados para as mudanças e respectivas adaptações. Cuidar do corpo e da alma e nunca descuidar as emoções. Mas também importa aceitar boiar nos espaços de conforto, que ela nos vai proporcionando. O equilíbrio não é a perfeição, é apenas a possibilidade de permanecermos vivos entre o esforço e a quietude, aceitando que algures, em algum lugar, a nossa existência faz todo o sentido, como as ondas se entregam à areia no momento de descansar. Boas férias!
Manuela Parente