Não há dúvida que é na desgraça que se conhece a relatividade das coisas e, sobretudo, a índole de quem nos rodeia. Sei que a constatação é lugar comum, mas o facto é de tal modo evidente que, por muito que o tentemos ignorar, se nos impõe, fazendo-nos constatar que a natureza humana é deveras singular e curiosamente paradoxal. Há semanas, por exemplo, uma troca de palavras menos feliz com um colega de trabalho pôs-me a pensar nas doses descomunais de paciência que a vida em sociedade nos exige e em como, de quando em vez, a tolerância é uma grandeza que sabe a pouco, a muito pouco. As cedências permanentes perante a estupidez humana, na verdade, cansam. Por vezes, que começam a não ser poucas, apetece reagir em vez de aceitar e lá vem o dia em que a tampa salta, perdemos a razão que até tínhamos e, no fim, damos connosco a refletir no quão fartos estamos de aturar gente. Era isso, pelo menos, o que vinha sentindo há já algum tempo em relação aos meus pares, principalmente no que toca àqueles para quem o mundo é o seu quintal e os outros valem pouco mais do que nada. Imbuída, pois, de tais pensamentos, perdi-me então no dilema de sentir medo da solidão e perceber ser cada vez mais difícil conviver com o egocentrismo dos outros. Cheguei, inclusive, a sentir fraquejar a minha confiança ilimitada nas qualidades do ser humano. E, quando o cinismo parecia estar a levar a melhor, eis que a infelicidade quase bate à minha porta e reposiciona-me no meu mundo a 19 de junho, dia em que Gaula ardeu e no qual reaprendi que sozinhos não somos nada. Gaulesa por opção há sensivelmente cinco anos, eu, mulher nascida na urbe, aprendi com os incêndios que consumiram a minha freguesia há quinze dias uma lição de vida que só o medo, a angústia de perder tudo, nos é capaz de proporcionar. Aprendi a ser humilde, a pedir ajuda e a ajudar. E, sobretudo, percebi que qualquer um, não importa quem, tem os mesmos medos que eu, neste caso o mesmo pavor que só se tornou suportável porque foi partilhado com os outros, os meus vizinhos, gente desconhecida até então que me ensinou que a união nos faz crescer dentro da nossa pequenez. Até então, e durante anos, os meus vizinhos e eu cruzámo-nos uns com os outros sem nos dispensarmos um minuto de atenção. Trocámos tímidos bons dias e apenas pressentimos que muitos não éramos gente do sítio, mas forasteiros que escolheram o Caminho da Cova para criar raízes. E fizemo-lo talvez por acidente, talvez por amor à tranquilidade e à natureza, talvez por não haver alternativa melhor. Cruzámo-nos, dizia eu, durante anos sem que ninguém esboçasse o mínimo gesto para acamaradar, pois, lá está, provavelmente todos estávamos fartos de aturar gente. Cada um na sua casa, cada um na sua ilha, assim se vivia na Cova até ao dia em que Gaula ardeu. Nessa fatídica quinta-feira, conheci os meus vizinhos. Vi-os, talvez, pela primeira vez. E eles a mim. Fiquei a saber qual a casa de cada um e cada um ficou a saber qual a minha. Chorámos e rimos juntos. Afligimo-nos juntos perante a escassez de água para debelar o fogo. Trocámos números de telemóveis para que uns pudessem sair de casa para acudir a outros que, em locais mais distantes, precisavam de ajuda. Andámos a pé até à madrugada, em brigadas improvisadas, a patrulhar o fogo que se não deixava apagar. Os mais velhos, gauleses experientes e profundos conhecedores dos meandros da natureza local, instruíram os mais inexperientes que, como eu, fitavam o horizonte em chamas sem saber o que fazer. Uns sosssegaram os outros e todos, sem exceção, se comprometeram tacitamente a acudir à primeira casa a que o fogo chegasse. A minha, por sinal. As deles, as dos meus vizinhos, estavam mais longe, mas naquele momento a casa de cada um era a casa de todos. Durante três dias, foi assim. Sem dedos apontados a ninguém, Gaula tornou-se a casa de todos nós e nós, gauleses por natureza ou por acidente, fomos um só. E isso devolveu-me a fé no ser humano, pois, mesmo que, passada a desgraça, cada um de nós volte à sua ilha, sei que os meus vizinhos e eu, juntos, somos capazes de apagar incêndios. Venham eles de onde vierem.
Eker Sommer