Antes fosse o sortilégio milagreiro da Rainha Santa! Mas não. Ele é facturas escondidas de obras públicas por pagar - cá e lá; ele é as sempre negadas mas já anunciadas taxas moderadoras nas urgências regionais; ele é alunos sem transporte por via dos calotes a empresas; ele é o número de falências, de famílias insolventes, de casas entregues à banca por incapacidade de pagar empréstimos; ele é o desemprego alarmante, na ordem dos 20 mil cidadãos a nível regional, 15% da população nacional, 35% entre os jovens. Como na Europa, onde sem precedentes na história, um quarto dos jovens está desempregado e é zero a política de emprego. O governo português, cuja sensibilidade social ganha a palma, considera ser o desemprego "novas" oportunidades para mudar de vida e fica-se pela oferta de benefícios fiscais às empresas em troca de empregos de salário mínimo, o tal que ombreia com o limiar da pobreza e obriga os novos pobres a socorrerem-se das instituições de solidariedade social. Pergunte-se a Isabel Jonet, ou à regional Cáritas! Fala-se de uma juventude sacrificada. Esquece-se que sacrificar os jovens é hipotecar o futuro das suas famílias e do país! São previsíveis em custos sociais, as consequências da inquietante subida do desemprego, da redução dos salários e consequente quebra na dinâmica económica. Não será preciso um doutoramento de Harvard para adivinhar os desequilíbrios orçamentais provenientes da diminuição das receitas fiscais dos impostos sobre o trabalho que não há e da exangue actividade económica, redundando no aumento das despesas do Estado com subsídios de desemprego e prestações sociais, pois crescem as situações de emergência social. Como já se verificou na execução orçamental do primeiro trimestre deste ano, o que prova serem inúteis os sacrifícios impostos aos portugueses por esta maneira de resolver a questão das nossas contas públicas. E a ser assim, como irá atingir-se o défice zero de Angela Merkel, tão prontamente assinado por Passos Coelho e ao mesmo tempo criar riqueza, emprego, alavancar o investimento e o futuro, se o mote é reduzir, cortar, suprimir, extinguir, despedir, suspender, parar?... Não estará a sobrevivência do país - e de outros - em causa? Onde estás, Europa Social da União de Jean Monet e dos Cidadãos? Sabe-se que tudo isto é consequência de um modelo de capitalismo sem regras, mas os seus gurus à escala global, os apóstolos das grandes empresas financeiras doutas engenheiras de malabarismos orçamentais fraudulentos, - alguns hoje governantes nomeados de países europeus em crise, ou notáveis conselheiros do governo português - preferem aproveitar a oportunidade para, capitaneados pela troika, fazer cumprir a sua agenda ideológica de ajuste de contas com as conquistas sociais destruindo-as, precarizar, embaratecer o custo do trabalho e preservar lucros. Como se fossem os trabalhadores os responsáveis pelas altas negociatas de casino com que o sistema bancário e os seus vícios continuam a dar cabo da economia real - veja-se os números recentes das operações financeiras da J.P. Morgan. Parece ter-se esquecido a história mundial recente quanto ao desfecho da crise financeira de 1929: a II Guerra Mundial e o seu cortejo de horrores… Para quando um sobressalto ético? Num país em que através das empresas de trabalho temporário já se contrata médicos especialistas e engenheiros a 600 euros ao mês, - o patamar político de riqueza - reduzir quais salários? Só se forem os dos gestores das empresas portuguesas cotadas em bolsa, alguns 44 vezes o salário do assalariado comum, uma imoralidade em ano de crise e recessão económica, obtidos à custa de redução salarial e despedimento de subalternos! Na mesma onda, a senhora Lagarde vitupera os gregos por não pagarem impostos, - a origem de todos os seus males, na sua opinião; mas ela própria não paga impostos pela generosa quantia auferida pela sua função no FMI! Os membros da troika que nos governa por sua vez são ricamente ressarcidos em milhões pela inestimável tarefa de nos ajudarem, verbas que nós contribuintes estamos a pagar! Após um ano de drásticos cortes salariais na administração pública e aumento de impostos, a renegociação dos encargos do Estado com as régias rendas da energia e os contratos leoninos das PPPs pagos pelos contribuintes, continua por fazer. E diz-se que não há dinheiro! Que temos que empobrecer! E estamos. Muitos. Mas há uns que enriquecem e muito. Di-lo a estatística do luxo… E no entretanto os políticos maioritários, contagiados pela arrogância que o poder por vezes comporta a quem da maioria só conta os votos e não as restantes regras do jogo, continuam os seus atropelos ao debate democrático, alguns refugiando-se na sua insular e patológica liturgia do insulto e culpabilização dos inimigos externos, outros envolvidos em jogos de espionagem, pálida imitação do clássico John Le Carré! Tudo com a retórica da democracia, da igualdade de oportunidades, da defesa do estado democrático de direito, da coesão e do Estado Social em pano de fundo! E nem a Selecção de todos nós nos alegra a alma! Valha-nos o Milagre das Rosas da Rainha!
Júlia Caré