A vida privada de alguns madeirenses anda a ser vasculhada. São ordens do poder.

Manda quem tudo vigia que se saiba quem anda a agitar as massas, a ter posturas fracturantes e quem janta com quem, em que locais e a que horas, o que explica que muito boa gente pense duas vezes antes de aceitar convites para repastos de negócios, de família e de mero e salutar convívio em locais públicos. Puro terrorismo.

Quem tudo vigia exige que haja atenção redobrada às reuniões talvez maçónicas, e outros ajuntamentos tidos como hostis, na tentativa de obrigar a mudanças de rotinas e a enfraquecer tudo o que não gravita entre a comissão de sítio e a casa do povo. E assim tenta ele dar cabo de mais um princípio constitucional, o direito à liberdade de associação e de reunião.

O vigia da quinta manda contar quem falta a iniciativas que servem para propagandear o regime, os discursos vazios de futuro e as obras de durabilidade efémera. E como nem todos se vergam à obrigação de fazer número, joga pelo seguro e instrumentaliza tudo o que possa garantir audiências, mesmo que ingénuas.

Porventura ainda haverá ordens superiores para apurar: as relações familiares daquele corajoso, catalogado de 'cachorro', que interrompeu um discurso oficial ou do padre lúcido e fiel ao Evangelho que proíbe a distribuição do lixo ofensivo no adro da igreja; as dependências económicas de quem se atravessa ou enfrenta quem nunca foi questionado pelas asneiras que fez; a história de vida, de preferência com grande dose de revisionismo, de todos quantos não temem a perseguição decretada.

A espionagem ao estilo 'Madeira nova' também recorre a ameaças públicas, a interferências comprovadas em meios de comunicação social, à utilização indevida de arquivos fotográficos, mas também a vídeos, a tudo o que é editado em blogues e redes sociais, e com jeito, ao histórico fiscal dos contribuintes.

Sobres os informadores sabemos tudo, mesmo que eles nem saibam quem são. Denotam ser básicos, vulgo, bilhardeiras, mas daquelas sem dotes, nem currículo; que ditam ordens até em casa alheia; e que gostam de aparecer, quais emplastros. Recebem para ser patetas úteis, anos depois dispensáveis, apenas porque um dia alguém lhes disse que importa mostrar serviço ao chefe que tudo vigia para que nada lhe escape ao controle. E espiam porque nada há mais para fazer, como se o ócio justificasse o salário garantido pelos que trabalham.

Os madeirenses não devem afligir-se com os espiões, muitos deles conhecidos como os "filhos do carro preto", uma geração que nasceu em tempo de fartura, de emprego fácil e vitalício, viciada no poder esquizofrénico e no jogo da subserviência. O que se passa por estas bandas é mais manobra resultante do desespero dos intrujões, que precisam de arranjar todos os dias motivos para que o povo não se aperceba que foi enganado, que paga impostos como nunca e que se arrisca a acabar na miséria, a exemplo daqueles que, especializando-se em espionagem, apenas revelam temer os efeitos das bombásticas revelações a seu respeito.