O mês de Junho, que está prestes a terminar, fica indelevelmente marcado por dois sentires, paradoxalmente opostos. A angústia e a euforia. A angústia que a todos envolve, particularmente aos funcionários públicos e pensionistas, que por ordem do governo viram ser-lhes roubado, em parte ou na totalidade, o subsídio de férias. Eu sei que a palavra 'roubo' fere algumas susceptibilidades, mas não consigo arranjar outro vocábulo que classifique, com precisão, o espoliar deste direito legalmente garantido. Não fosse isto já por si só suficiente para lançar a angústia em muitas famílias que usavam este subsídio, não para irem de férias, mas para fazer frente a algumas despesas, acresce o aumento brutal do desemprego e a falta de perspectivas, optimistas, de futuro. Segundo o INE, o desemprego real, que incluiu os 'inactivos disponíveis e o desemprego visível' aumentou de 17,7% para 21,5%, entre o 1.º trimestre de 2011 e o 1.º trimestre de 2012. Juntando a estes números as alterações, abruptas e repentinas, que se estão a fazer no sector da educação, em Setembro estes dados terão, previsivelmente, um aumento significativo. No que à docência diz respeito a revisão da estrutura curricular, o despacho sobre a organização do próximo ano lectivo, o aumento do número de alunos por turma, o aumento da carga horária dos docentes através da redefinição do que se considera ser horário lectivo, entre outras medidas, convergem para um horizonte negro. Admitindo e, simultaneamente, tentando disfarçar o impacto que estas medidas terão no aumento do desemprego docente e, consequentemente, na qualidade do sistema educativo, a Secretaria da Educação argumenta que a diminuição do número de professores no sistema educativo, no próximo ano escolar, deve-se, unicamente, à diminuição do número de alunos inscritos no sistema, ou seja, à diminuição da taxa da natalidade. Esquece-se de referir que o corte previsto no Orçamento Regional para a Educação, vista, também pelos governantes regionais, como uma despesa e não como um investimento, inclui a redução de pessoal no sistema. Esquece-se, também, de que o alargamento da escolaridade obrigatória aumenta o número de alunos a frequentar o ensino secundário e que estes alunos precisam de professores. Mais uma contradição destes governantes. Contradição que não passa só pela retórica dos argumentos. Esta contradição terá repercussões no normal funcionamento das escolas e consequentemente terá custos agravados no futuro da educação. Mas o mês de Junho é, também, o mês do Euro 2012. O mês em que cada dia que joga a selecção, durante aqueles mágicos 90 minutos, se esquecem os problemas. Esquece-se a 'troika', esquece-se a desesperança, para, euforicamente, viver a selecção. Sofremos quando os postes da baliza adversária entendem fazer parte da festa. Vibramos quando a bola chega ao fundo da baliza! A selecção devolve, naqueles 90 minutos, a esperança roubada. A esperança de sermos capazes de tudo, a vontade de vencer o futuro. À hora que escrevo, não sei o resultado da meia-final. Não sei se estamos ou não na final. Não sei se o Cristiano Ronaldo marcou ou não e se esse golo nos conduziu à tão esperada e desejada presença na final deste Euro 2012. Mas sei que, independentemente do resultado, desde o momento em que o hino português é cantado até ao apito final do jogo, enquanto estivemos em campo, fomos grandes, fomos uma selecção que conta, independentemente da opinião de Platini. Durante esse tempo, foi-nos permitido sonhar. * Este texto, como todos os assinados por mim, não respeita o Acordo Ortográfico de 1990, vulgo Novo Acordo Ortográfico
Marília Azevêdo