Henry Ford (1863-1947), o empreendedor que fundou a Ford Motor Company e o primeiro a aplicar a montagem em série no sistema de produção dizia que "se o trabalho é executado pelas máquinas, estará sempre correcto. Por isso, o fardo da criação está na concepção, gestão e selecção do material que será produzido pelos múltiplos métodos utilizados na produção em massa... O esforço físico é retirado dos homens e executado pelas máquinas. O trabalho mental recorrente é transferido das pessoas na produção para as pessoas na planificação." As implicações desta frase são aterradoras: Ford tenta convencer-nos que uma das coisas mais satisfatórias da nossa vida (a criação) é "um fardo" - e que é bom "aliviar" as pessoas dessa carga. Essa é a tragédia da tecnologia - quando abusada, retira-nos a possibilidade (até a esperança) da mais modesta atividade criativa. A industrialização convenceu-nos que podemos recuperar como consumidores aquilo que perdemos como criadores, mas é uma ilusão. Os objetos que o marketing nos oferece não nos preenchem, e numa altura em que a pessoa comum tem cada vez menos poder de compra - está condenada a uma pobreza intelectual, para acompanhar a pobreza material. Ford tentou "libertar-nos" do "fardo da criatividade". E nós aceitamos - mas talvez valha a pena olhar para aqueles que questionaram este modelo (como Richard Branson, ou Madonna) que utilizaram a criatividade para gerar riqueza a partir de uma gestão eficiente das suas capacidades e talentos.

Roberto Macedo Alves, Desenhador de BD