Era mais ou menos assim: “A maioria dos cubanos (linguagem madeirense, que significa continentais) está a reclamar da dívida da Madeira. Dizem que não vão pagar algo que não usufruem.. Muito bem! E eu tenho de pagar os estádios do Euro 2004? E a ponte sobre o Tejo? O Parque das Nações? A Casa da Música? E o TGV? E o BPN?” No fim apelava a um “cola no teu mural se és madeirense”.
E houve quem colasse, numa espécie de grito de nova revolta da Madeira velha, como o poder lhe chama. A frase espalhou-se nas redes sociais qual praga. Quando vi, corei de embaraço. Acho curioso que os ‘madeirenses verdadeiros’ (os que colaram orgulhosamente a frase nos seus murais como carneiros obedientes) se tenham sentido tão espicaçados pela má imagem que a Região goza no país, mas não questionem as razões que levam a que a Madeira seja hoje a mais periférica zona do país e não pela sua geografia.
‘Revoltam-se’ contra o que vem de fora mas não olham para dentro. Toleram bem que os seus filhos e netos estejam endividados até a ponta dos cabelos que ainda nem lhes nasceram e ainda acham que não se lhes pode dizer nada, porque os outros, de fora, não têm moral. O que é verdade. Mas se Portugal gastou mais do que devia, a Madeira passou todas as marcas e limites. Não sou eu que o digo. É a revisão do memorando da ‘troika’, que revela que a Região está fora de controlo, desgovernada, e que precisa que alguém, de fora, imagine-se, ponha mão nisto.
Chegou a hora de pagar a cumplicidade e o encolher de ombros com sangue, suor e lágrimas. Vai ser a doer, não há mais bónus, nem perdões. O presidente do Governo Regional continua a chutar para a frente e a prometer o que há muito saiu da sua mão. O que é surpreendente não é, contudo, a negação de Alberto João Jardim, mas a incapacidade de uma geração de querer ver. Ou os 'madeirenses regionalistas' acreditam mesmo que pagaram pontes e estádios em Lisboa com os seus impostos, que não saem da Região?
Se sim, Jardim deve estar satisfeito. Conseguiu não só passar bem a mensagem do inimigo externo, como toldou, com baldes de argamassa e toneladas de betão, o raciocínio das novas gerações, que repetem sem questionar um ‘Madeirismo’ que à luz dos acontecimentos fica mal e está ultrapassado.
A Madeira pode espernear contra a capital e olhar para fora. Mas faria bem melhor se desta vez se revoltasse para dentro e mostrasse o discernimento que o seu líder há muito perdeu.