Padre José Martins Júnior Nesta euforia sacro-profana da inauguração de novas igrejas, em que usurpadores do nome de Jesus Cristo se comportam como meninos-do-coro na catedral do poder político, batem-me sempre ao ouvido aquelas palavras do maior orador português, o Padre António Vieira, pronunciadas no sermão da Quarta Dominga da Quaresma, na faustosa igreja de São Luís do Maranhão, "cidade tão nobre e cabeça de estado" do nordeste brasileiro, em 1657, perante as mais altas entidades da Irmandade da Misericórdia: "…Pois seria bem que viesse Cristo a esta cidade com fome, com sede, despido, peregrino, enfermo, e não haver uma casa para o hospedar? … Melhor fora não haver na Misericórdia igreja, que não haver hospital, porque a imagem de Cristo que está na igreja é imagem morta, que não padece: as imagens de Cristo, que são os pobres, são imagens vivas que padecem. E se não houver outro modo, converta-se a igreja em hospital, que Cristo será mui contente disso." Assim falou o "Príncipe da Língua Portuguesa", como lhe chamou Fernando Pessoa. Há quase quatrocentos anos. Publicamente. Diante das mais proeminentes figuras de Estado. De cada vez que se levantam as torres do poder sacro-profano a dominar montes e vales, caem de mais alto aquelas sonoras badaladas: "Melhor seria não haver igreja, que não haver hospital" E, na mesma hora, sempre que se esboroa no chão o sonho de um hospital, oiçamos a sagrada sentença: "Se não houver outro modo, converta-se a igreja em hospital, que Cristo será mui contente disso". Escrevo estas palavras após modesta celebração litúrgica, hoje, 14 de Setembro, dia da Exaltação da Santa Cruz. Ocorrem-me sombras de liturgias vistosas, cruzes de ouro e prata transportadas em solenes pontificais, loas e hossanas untando de incenso e presunção as ogivas das catedrais. Mas chegam-me aos ouvidos as sábias pancadas da consciência de outrora, de há quatrocentos anos: "A imagem de Cristo que está na igreja, é imagem morta que não padece: imagens de Cristo, que são os pobres, são imagens vivas que padecem". Volta, missionário da Luz, paladino da Transparência, Padre António Vieira, rompe as trevas do tempo. E abre os nossos olhos à Luz da Verdade!