Quando nasci ainda a democracia não existia no meu país. Não guardo, contudo, memória desses anos sem liberdade, amordaçados por um regime caduco e controlados por uma polícia política. Não cheguei a sentir o peso de viver um silêncio imposto por um pensamento único, num país definhado e orgulhosamente só.

No momento em que a memória passou a contar e a contar-se, já a democracia era palavra de ordem e senha de esperança. Dos tempos idos, existiam apenas o eco e as histórias contadas à mesa. Existiam as músicas tocadas no velho gira-discos do meu pai. A gaivota que voava e o Abril que levara o medo.

Todos nós éramos "Grândola" banda sonora e 'nascidos' "depois do adeus" ao ditador. Todos éramos feitos de liberdade e de esperança. Meninos cuja única guerra seria travada no quintal e nos poios que davam lugar aos primeiros blocos de apartamentos e não num Ultramar que atemorizou gerações.

Nascidos depois da guerra e das mordaças, éramos gaivota e não abutres ou corvos negros. E é nas asas dessa infância, que era nossa e de um país novo, que voam as minhas primeiras memórias da liberdade, da esperança e da política. Sim, porque na altura as três coisas andavam juntas, partilhavam o mesmo código genético de uma democracia que se fazia coisa real e concreta.

As ruas da minha infância viram nascer os primeiros cartazes dos partidos que coloriram a existência com punhos serrados, setas, rodas dentadas, foices e martelos. Os vizinhos dividiam-se por partidos de esquerda e de direita, mas havia a inocência de novos dias que nos uniam a todos. Ao fim da tarde, quando a água corria nos jardins e por entre os vasos de sapatinhos, não havia barricadas e discutia-se em voz alta as opções de cada um, da mesma forma que mais tarde se iria discutir os capítulos da 'Gabriela'. A política era finalmente coisa nossa, possibilidade conquistada, escolha livre, dias inteiros por viver.

Lembro-me, como se fosse hoje e no entanto já tão distante, de correr com os meninos do meu sítio atrás dos carros de campanha, que atiravam papéis coloridos, e que, com sorte nossa, às vezes até paravam e ofereciam camisolas, esferográficas e cadernos. Tesouros que eram depois motivo de disputa séria, mas também de brincadeiras.

E se hoje me recordo de tudo isto, é porque a política, infelizmente, já não é legado de esperança. Perdeu a inocência como nós. E se antes brincávamos com as campanhas eleitorais, num jogo permitido pela liberdade, hoje temos a terrível e certa sensação de que são as campanhas eleitorais que brincam connosco. Não sei em que esquina do tempo perdemos colectivamente a esperança, mas lamento que tivéssemos deixado tão facilmente os valores dessa democracia jovem e cheia de possibilidades.

Lamento que os miúdos que viram nascer Abril sejam os mesmos que hoje enfrentam o desemprego, que os pais deles apenas tenham acesso a pensões de miséria, e que os que agora nascem corram sérios riscos de voltarem a ser criados pelo avós enquanto os pais são oobrigados a emigrar.

Lamento que tenhamos feito todo este percurso para voltarmos à 'casa de partida', como se tudo não tivesse passado de um jogo ou de um sonho.

Já não sei que pássaro somos, mas sinto que nos cortaram as asas e que já não temos solo onde assentar os pés.

Suspensos de nada e em desequilíbrio de esperança.