São os primeiros passos de uma estação que começa a começar. Não sei bem se uma estação (intuo-a outra, não pertence às estações do ano que nos chegam de volta no calendário a contar dias iguais, antecipados, alinhados, sem espera nem espanto). Não tem nome, por agora (procuro-o). Pressinto-o antigo, demorado. Sinto-o, inicial. Este é - antes - um novo tempo a que me pressinto chegar. Sigo os passos livres leves levados pelo ar quente da tarde. É o jardim do coração da cidade que agora aprendo, devagarinho. Pedra por pedra, a pulsar sob os meus pés; aprendo-as pequenas, redondas, por dentro da terra. Sinto-as chegadas do mar - tão aqui, tão perto. O chão que me ampara os pés pertence ao cais (- 'não cais, respira, fundo'). É ao contorno que desenha a ilha (uma costa onde se acosta oceano e sal, areia e onda) que pertence a terra que me acolhe e aninha. Amplio o olhar - agora - para me saber 'onde' e, de vagar, nítida, em dança lenta, cor de leste, noto uma linha ténue que me revela o farol depois do cais depois da cidade, dentro do mar, antes de todas as estações. Uma voz de que por enquanto não sei nome nem tom nem corpo nem contorno pergunta " - o que procura, menina?". Em mim (muda) nascem sons que me falam, me dizem: "olha: uma linha de palavras se desenha na face da folha: estepes, sumo de uvas, orvalho e raízes nos dedos, à face da folha nua". Aquieto-me, inteira. "O mundo nasce, sabias?". Sinto o instante onde "o mundo treme na alma da madeira", "folhas altas e seixos", "sol que nasce em teus joelhos". É este "o outro génesis" (de Mário Cláudio). Alargo o passo, por dentro do jardim do coração da cidade onde pulsa ainda o sal dos seixos de que se fazem os seus tantos caminhos, terra firme matéria do mar. Alargo o braço, abandono-me ao tacto. Entre os dedos descubro os veios de uma árvore (ainda - mas por tão pouco tempo - indefinida), por dentro das veias das minhas mãos. Ao tocar o tronco - dos ramos à raiz (funda forte, que a terra não consegue conter) - pressinto a leveza de areia molhada de chuva breve, acolhida no fundo do corpo da árvore que começo a conhecer. Estremeço, levinha. É a primeira respiração. Devagarinho. Um mapa que entre_tanto o meu olhar encontra revela o nome: árvore da chuva. Sim, é o instante inicial; cada uma, todas, as estações inteiras por dentro de si, "outro génesis". Árvore da chuva - aprendo-lhe o tom, o som, a cor, a terra, o toque, o ar que pulsa por dentro dos seus veios, a respirar água. Há o silêncio. "Esta casa é a tua casa. As casas sabem-no melhor, por isso se entregam em silêncio" (Tolentino Mendonça). Chegada, aninhada, conheço-a. Sento-me, acolho-me na árvore que, "de igual para igual", toma o nome e o sentido certos do instante do silêncio primeiro: (assim, agora, conversamos) "bela sombra", a desenhar o contorno do canto do mundo do jardim do centro da cidade da ilha. Escuto, escolho: "esta casa é a tua casa". Árvore da chuva, aqui "nos tornamos felizes" (Tolentino Mendonça).

Diana Pimentel