Dando continuidade ao gosto por andar e conhecer, adicionei, estas férias, o trajecto que liga o Pico do Areeiro ao Pico Ruivo. Sinceramente, não tinha ideia de o ter feito alguma vez. Em miúdo, talvez, mas assumidamente pouco nítido… Fi-lo há quinze dias. Fi-lo com um grupo de amigos liderado pelo conhecedor amigo Miki Pita - o que se aprende na vida fazendo as coisas com quem sabe… Nessa manhã soalheira, encontrámo-nos às 8 e 30 no Pico do Areeiro percorrendo os 8 km até ao Pico Ruivo / Achadas do Teixeira. A sensação de estar no topo, de andar sobre um imenso mar de nuvens, de percorrer a cordilheira que separa o Norte do Sul da Madeira, visualizando as torres eólicas do Paul da Serra - não ficam a mais de 10 km em linha recta do Pico do Areeiro - traduzem um sentimento único de bem-estar. Andando, fomo-nos deparando com um imenso manto de cinza resultado do incêndio que deflagrou nas serras da Madeira. Uma tragédia de dimensões incalculáveis: árvores centenárias ardidas - cuja nova existência não voltaremos a ver em vida -, agora timidamente disfarçadas pelo nascimento da inflamável erva feiteira. Comentavam que se retirarmos o impacto da perda de vidas humanas resultado do 20 de Fevereiro (não há valor mais importante que a preservação da vida humana), os incêndios do Verão do ano passado tiveram um impacto muito maior sobre o equilíbrio ecológico da nossa terra. Basta pensar quão desprotegidas estão as nossas serras se acontecer nova tromba de água… O cenário que encontrei fez-me recordar o filme "a estrada - the road" de John Hillcoat que relata a história de sobrevivência de um pai e de um filho numa América pós apocalíptica… A diferença em relação a esse cenário é que durante o percurso fui encontrando a presença de vida humana - nalguns casos com péssimos exemplos de civismo - resultado da ausência de infra-estruturas sanitárias básicas. Em cada recanto desenhado nas rochas é possível encontrar lenços de papel atirados e um cheiro desagradável que fazem corar de vergonha os responsáveis políticos que agendam como narrativa promocional as serras da Madeira. A este respeito, reitero que é urgente reflectir, sem preconceitos e sem "políticas", sobre a forma de utilizar e financiar todos estes caminhos. Não se trata de inventar a roda, apenas de procurar manter um dos produtos turísticos mais importantes, responsável pela vinda de milhares de turistas à Madeira. Bom, em conclusão, se queremos impressionar alguém que visita a Madeira ou o Porto Santo (amigo ou simplesmente conhecido) é fazer um passeio em levada ou em vereda. A sensação boa de superação, de dever cumprido, de reforço do espírito de camaradagem deve ser acompanhada pela remoção de aspectos menos positivos absolutamente laterais a este objectivo colectivo - o que é a vida se não um permanente exercício de superação de obstáculos e de perseguição daquilo em que acreditamos?
Bernardo Trindade, Ex-secretário de Estado