Gosto do Porto Santo integralmente. Não é uma ideia fácil de concretizar, mas é fácil de resumir: gosto do Porto Santo mesmo com mau tempo. Gosto do vento cortante e áspero a assobiar por entre os chorões, da majestade abrupta e solene das nuvens carregadas, do respeitável vagar com que condenam a praia à penumbra e à solidão. Gosto de ler aqui. Este ano, com a Inglaterra em Estado de Sítio e a crise da dívida pública em férias mal dormidas, recuperei o "Sermão de Santo António aos Peixes", do Padre António Vieira. Desbastando o livrinho, é com surpresa que verifico não ser apenas o seu discurso religioso que parece anacrónico, mas também o da própria natureza do Bem e do Mal. Na cumplicidade da praia vazia, há um poder especial nas palavras dirigidas aos pregadores: "vós sois o sal da terra (...) o efeito do sal é impedir a corrupção". O sal, ou a moralidade, já não é isto. Não na prática, pelo menos. Pelo contrário, é um utilitário - que é uma coisa que se chama a um Toyota Yaris, e por melhores razões. A Moral é algo cujo conhecimento tem um contexto e uma conveniência. Não evita a má acção, justifica-a. O sal tem hoje, por isso, função diferente. O sal, a moralidade, já não impede a corrupção da Terra, disfarça a corrupção da Tequila. A moralidade, tal como o sal ingerido antes daquele shot piromaníaco, é um mero analgésico, um artifício de racionalização de uma acção destrutiva. A Moral é boa, desde que não me diga que não posso ter a televisão LCD, os ténis Nike, o Ipad 2, ou o cargo com que sempre sonhei. A Moral é boa, desde que não me suje o fato ou me obrigue à contrição perante um sacaninha mal-disposto. A Moral é boa, conquanto me sirva para melhor acomodar os meus apetites. Caraças, não há nada de mal, ou sequer de novo, nisto. Que não faça de mim o mau tempo um moralista. Deus sabe quanta Tequilla bebi neste e noutros Verões. Mas quero dizer que há valor em sabê-lo. Que é importante, por vezes, testemunhar nesta praia a fúria dos elementos e lembrar que, ao contrário do que manhãs podres de luz possam deixar adivinhar, areias finas não se fazem com dias de sol.
Pedro Fontes