Jaime Nunes O comportamento e a linguagem de Alberto João Jardim não são levados a sério pela maioria das pessoas. Mas isso é um erro: foi isso que lhe tem permitido obter 37 vitórias eleitorais seguidas. Ao levar-mos o comportamento do líder regional para o lado cómico estamos a desculpá-lo, e isso não deve ser feito. Alberto João Jardim criou a imagem de "bobo da corte" (estilo zaragateiro e oportunista) e aproveita-se dela. Sabe muito bem o que diz e faz. A Festa do Chão da Lagoa é exemplo de como nada é deixado ao acaso. É feita em Julho ou Agosto, em plena silly season. O PPD/PSD-M investe muito dinheiro todos os anos. É altura sobretudo de ouvir Alberto João Jardim e Jaime Ramos ameaçar e insultar os governos, os partidos da oposição, os jornalistas e quem mais eles considerem oposição. Aposta-se na guerra ao inimigo externo (o Estado Português sedeado em Lisboa). E é todos os anos coberta por quase toda a imprensa (embora que ultimamente já não tenha honras de primeira notícia do telejornal nesse dia). Eis por exemplo um excerto de um discurso de Jaime Ramos, de 2008: «Quem quer ilhas no Atlântico tem de pagá-las, tem de sustentá-las»; «Portugal tem de pagar a horas, senão vai uma acção de despejo dos madeirenses». Outro exemplo: aconteceu em 1992. A dois meses das eleições regionais, Alberto João Jardim foi fazer uma presidência aberta no Funchal. Tolentino da Nóbrega sintetizou essa iniciativa do seguinte modo: «Diz que não faz promessas e distribui fundos que ainda não existem. Reage às críticas dizendo que não está para aturar tontos. E explica que a democracia não é perfeita porque os votos valem o mesmo.» As relações de Alberto João Jardim com os líderes do PPD-PSD têm conhecido altos e baixos sucessos. Ora é se comporta como o seu apoiante número um, ora mostra-lhes uma clara oposição. Normalmente, quando estes ascendem a primeiro-ministro e passam a criticar o despezismo feito na Madeira as relações arrefecem e Alberto João Jardim torna-se no seu pior inimigo. No entanto, quando se tem de aprovar um orçamento de Estado, rapidamente há acordos (pois ambas as partes têm interesse e o voto dos deputados no PPD/PSD-M é por vezes decisivo). E quando à eleições no PPD-PSD nacional todos os candidatos querem obter o apoio de Jardim e do PPD/PSD-M (embora que, com o estabelecimento das directas no PPD/PSD o peso de Alberto João Jardim tenha diminuído). Todos os líderes sentem-se por isso "obrigados" a ir à Festa do Chão da Lagoa, ouvir e aplaudir o líder regional e os seus homens. Mas muitas vezes quem vai é totalmente ignorado (a estrela é outra) e que não vai é apelidado de "burguês". Alberto João Jardim não apoiou a candidatura de Pedro Passos Coelho a líder, tanto em 2008 como em 2010. Isto porque ele foi favorável à nova Lei das Finanças Regionais (aprovada na Assembleia da República, em 2007, por sugestão do governo PS). Mas no congresso de 2010 e depois de eleito Pedro Passos Coelho tentou uma aproximação, que deu frutos: Alberto João Jardim aceitou ser cabeça de lista pela Madeira à Assembleia da República (nestas eleições, 2011). Com estes exemplos temos de ter consciência em quem votar nas próximas eleições regionais de Outubro.