A campanha terminou. Fica-nos na boca um amargo e no estômago um desespero, sabemos que coisas más se anunciam, mas apenas podemos imaginar ao certo quantas, quais e quando. Durante a campanha, em vez do necessário esclarecimento, assistiu-se, principalmente, a desinformação e contra informação onde os dois partidos governamentáveis, ao invés de apresentarem as suas propostas, esclarecer de que forma seremos afectados aos vários níveis pelas consequências dos acordos e qual a sua estratégia para mitigar esse impacto, mais não fizeram do que acusar-se mutuamente da situação em que actualmente nos encontramos. Razões, há-as efectivamente de parte a parte. Sumariamente: Passos Coelho, face à conjuntura financeira dramática do passado recente, não poderia ter precipitado o processo de eleições, e o PS não poderia ter feito passar o "gato por lebre", branqueando o "PEC 4" e os acordos firmados, dos quais já se descortina a terceira versão. Para além das "normais" divergências de carácter ideológico, como a privatização ou não do sistema de saúde e da educação, o despedimento por "inaptidão" dos trabalhadores e outras questões do mesmo jaez, o mais notório foi o confronto de dois egos. Dum lado um apego desmesurado ao poder, do outro uma sede de poder a qualquer preço. Quanto ao país, esse… Paulo Portas passeou-se como de costume pelas feiras, contando as favas, experimentando chapelinhos, com o olhar cintilante de quem sabe ser incontornável em qualquer solução governativa futura. Não teve de dar, nem deu, "uma para a caixa".

À esquerda, o do costume, chorou-se sobre o leite derramado, combateu-se o problema, não tendo aparecido deste quadrante nenhuma proposta que seriamente possa ser considerada solução para a saída da actual crise. Não se podem considerar sérias propostas como a da saída de Portugal do Euro. Quanto às pessoas, essas andaram alheadas nas suas vidinhas, distraídas, embora com uma vaga consciência de que existe uma ameaça, sem saber ao certo, quando e como se concretizará e como afectará as suas vidas. Assistimos, há dias, num telejornal a uma cena que julgo ser sintomática. Francisco Louçã sentou-se numa mesa para almoçar numa cantina da Universidade de Coimbra. Uma estudante (universitária) que encontrava sentada nessa mesa, disse à televisão não saber de quem se tratava. O Day After. Os dados disponíveis actualmente levam-nos a acreditar que o PSD será o partido mais votado e que, coligado com o CDS, obterá uma maioria absoluta. O país experimentará um governo de direita (dificilmente Paulo Portas poderá ser considerado centrista) com tudo o que isso acarreta. As posições ideológicas têm consequências práticas. Em nome dos acordos, serão implementadas medidas neoliberais que interferirão com todos os aspectos do nosso dia-a-dia. À semelhança do que aconteceu com a chegada do conservador Sr. Cameron a 1º ministro em Inglaterra, onde as propinas universitárias quase que quadruplicaram, temos de estar preparados para o aumento do período de espera para consultas e cirurgias, para a diminuição da comparticipação do Estado na nossa saúde, para a escola ser mais cara, para o aumento de alunos por turma, para uma escassez dos recursos disponíveis, para a diminuição em tempo e em valor do subsídio de desemprego, para a subida generalizada dos bens e serviços (mesmo os de 1ª necessidade) e dos impostos directos e indirectos. A direita (CDS e PDS), cumprirá o desígnio de Sá Carneiro: Um governo, uma maioria e um presidente. Estes partidos conhecem perfeitamente a situação em que o país se encontra e por isso não terão por isso mesmo álibis para não tirarem o país do atoleiro. O PS, na oposição, presumivelmente fará uma cura de desintoxicação, libertando-se da tralha socrática. Parte dos "boys" abandonará o barco porque a hora não é para "jobs". Será inevitável o debate e a reflexão conducentes a uma recuperação ideológica, abandonada em nome do pragmatismo. Esperemos que assim aconteça porque a democracia necessita dum partido que seja efectivamente socialista. Quanto à esquerda, com mais ou menos deputados, continuará a fazer o que tem feito, resistir e capitalizar com o descontentamento que por certo se generalizará. Quanto a nós, comuns mortais: mais uma vez pagaremos o "pato" e esperaremos por dias melhores.

Helder Melim