Sempre gostei muito de geografia, foi uma das minhas opções de 12º ano e ainda me lembro do meu professor me tentar convencer a seguir os meus estudos nesta área. Hesitei entre Medicina e Engenharia e acabei Engenheiro Informático. Tenho pena que na altura não existissem cursos de inspiração liberal que permitam aos alunos seguirem áreas técnicas mas também explorarem os seus interesses em particular nas ciências sociais e nas humanidades. Espero que quando chegar a vez dos meus filhos optarem por uma formação superior já exista essa possibilidade porque na geração deles a formação integral será ainda mais importante do que na minha. Razão tem o meu filho Tomás, que tem uma memória geográfica/espacial prodigiosa e acabou por mudar para Artes no 10º ano porque não queria perder tempo a aprender o que já sabia de cor. Vem isto a propósito de dois livros que li durante as férias seguidas de uma paragem forçada a contas com uma hérnia discal: "Why the West rules - for now" de Ian Morris e "A Geography of Time" de Robert Levine. São dois livros fascinantes que recomendo vivamente para quem pretende ir para além das explicações simples que inundam os media atualmente. Em "Why the West Rules" Ian Morris, eminente professor de clássicas e humanidades de Stanford, apresenta uma primeira tentativa de criar uma teoria unificada da história. Apresentando a evolução do desenvolvimento económico desde 14 000 a.C., Morris demonstra como o ocidente lidera o mundo nos últimos 200 anos por causa da geografia. A tese de Morris parte do princípio que a biologia explica porque é que os humanos são impelidos ao desenvolvimento social e a sociologia explica como o conseguimos. Como as leis da biologia e da sociologia são universais e se aplicam a todos os seres humanos independentemente da origem e do sítio em que vivem, é portanto a geografia que explica as diferenças. A visão de Morris refuta as explicações do Sec. XIX que indicavam a superioridade biológica dos povos ocidentais. Por muito que custe a algumas mentes mais perversas não existem diferenças genéticas significativas entre os povos do norte, sul, oriente ou ocidente. A evolução dos indicadores de desenvolvimento social dos diferentes povos demonstra isso mesmo. Embora o ocidente tenha liderado o desenvolvimento humano desde a idade do gelo, a vantagem perdeu-se por volta de 500 d.C. e tem variado desde então. A teoria da superioridade da(s) raça(s) é claramente o resultado de uma visão do domínio ocidental dos últimos 200 anos que esquece que o oriente dominou claramente o desenvolvimento humano do Sec. XI ao Sec. XVIII. Ao juntarmos as explicações sociológicas à biologia compreendemos as variações no desenvolvimento social. Como explica Morris as grandes transformações sociais aconteceram como resultado de tempos complicados associado à extinção dos recursos que sustentam uma determinada civilização. No final da idade do gelo os caçadores tornaram-se tão em sucedidos que tiveram que se tornar agricultores e estes depois criaram as cidades e os impérios que por sua vez extinguiram os novos recursos e deram origem às civilizações modernas depois da revolução industrial. O padrão é sempre o mesmo e repete-se inevitavelmente. De acordo com as mais variadas previsões o domínio do ocidente vai acabar entre 2016 e 2103. Independentemente da data prevista parece claro que o domínio do ocidente está prestes a terminar. Tal como nos mais variados pontos de viragem da história esta mudança está relacionada com a extinção dos recursos financeiros. O que alguns economistas chamaram de "Chimerica", uma fusão da China com a América que foi responsável pelo espetacular crescimento económico dos últimos anos mas simultaneamente o seu principal coveiro - a sonho ("quimera") da qual o mundo teria que acordar mais tarde ou mais cedo. Embora nos países ocidentais as pessoas ganhem 10 ou mais vezes o que ganha um chinês, a verdade é que a China financiou durante muitos anos a dívida dos países ocidentais. Se a China parar de financiar a economia americana (e para todos os efeitos a ocidental) vai perder os seus clientes e o motor da sua economia. Um raciocínio semelhante pode-se aplicar à europa com a Alemanha e a França a finalmente compreenderem que estão reféns do mesmo ciclo vicioso. Em a geografia do tempo Robert Levine dá uma explicação apaixonante sobre como a nossa percepção do tempo muda com as diferenças culturais. Partindo de observações aparentemente banais (como cronometrar a velocidade a que as pessoas caminham em diferentes cidades) Levine demonstra como a percepção do tempo varia entre países e mesmo cidades. Como três horas de atraso não são nada no Brasil ou como a noção de longo prazo é diferente no Japão e em Portugal. Um tema fascinante a que espero voltar em breve.
Nuno Nunes, Professor Universitário Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal
Nuno Nunes