Subi naquela tarde de Outono para o quarto como quem se esconde da consequência do erro que se comete em tentação. Deitei-me na cama com o desejo de descansar o meu cansaço. Quis que o pó descansasse em mim da mesma forma que pousa, indesejavelmente, na suavidade de um móvel de sala. Imaginei que Atala jazia nos meus braços, no seu último leito: sois pó, sois matéria ignóbil, sois a escuridão e a sombra no pranto de luz de uma flora esquecida na trela de um felino que deambula na selva. O pó foi descendo, desceu até mim. Repousou eucaristicamente na pele que um dia será pó. O pó formará em mim finas camadas de palimpsestos memoriosos. A memória trai aquele que se tenta lembrar e oscula aquele que vive o quotidiano inconscientemente ignorante. Atala jazia nos meus braços, em modelos de pietà. A nossa memória é uma coleção de retalhos de diferentes cores, texturas e qualidades. Pedi a Atala, como quem embala uma catraia nos braços: exumemos as linhas de cores distintas e costuremos juntos os dias que nos passam pela frente. Afaguei Atala naquela noite invernosa, quente nos meus braços e fria nos dela. O tempo vai passando e ficamos no ar rarefeito do quarto sombrio, indistinto e taciturno. Esperemos, Atala, pela primavera vindoura e pelo sol que aquecerá o parapeito da janeira, à cabeceira de um sono vagabundo e empoeirado. Susurrei: a morte cercou-te cedo Atala. É de madrugada. Exibes fragmentos de infância num passado mimoso e metafísico na tua face serena. Repousa a memória e deixa-te dormir eternamente no nosso pó.

Fernanda Castro - Colaboradora da Associação Académica da Universidade da Madeira