Sim, acho que poderia fazer as contas. Contas simples, dois números apenas, o de antes e o de agora. Feita a subtracção, enfim o resultado.
Sim, podia fazer as contas certas e concluir rapidamente a equação matemática em que se transformou este Natal.
Podia fazer todas as contas, não fora o subsídio de Natal ainda capaz de me transportar para outras memórias.
Um, dois, três... e cá estamos nós. Acho que, nesse ano, as paredes da sala estavam pintadas de um vermelho interior. Ao canto, o pinheiro esperava as mãos da minha mãe.
Um, dois, três, quatro, cinco. Somos nós. Três rapazes e duas raparigas. Contas simples de calções, saias curtas e cabelos por pentear.
Esperávamos. As mãos nos bolsos, o sorriso ainda a ensaiar o futuro. Dez joelhos em impaciência, já a correr porta fora pela vizinhança ainda indomada de progresso. Os poios, as poças com girinos, o frio de Dezembro contra o qual atirávamos o calor das brincadeiras e das 'guerras' travadas em todos os quintais.
Por agora, no entanto, a paz. A espera.
Vivemos uma infância ainda sem mesadas. Mas, em Dezembro, o meu pai está sentado à beira da cama, a fazer contas de somar. A nossa idade dividida em envelopes pardos. Em cada um deles, o nosso nome desenhado com a letra redonda da minha mãe.
As porta está a abrir-se. É o meu pai. Senta-se no sofá e faz a chamada. Do mais velho ao mais novo. Um sorriso, um beijo.
O envelope na nossa mão, que vamos abrir às escondidas. A contar as notas. Um pequeno tesouro.
Não interessa se era muito ou pouco, o que importa é que esta é ainda a minha mais grata memória do Natal e do seu subsídio.
Agora que lembro, ainda consigo ver, com todas a clareza, a porta a abrir e o meu pai, novo, de sorriso triunfante, de envelope na mão.
Estamos todos a sorrir, ainda é Natal. Cinco pares de joelhos, cinco sorrisos, cinco vezes a paz antes da guerra no quintal, cinco vezes a alegria multiplicada. Contas simples de somar....