Nós, ilhéus de fado, até estamos familiarizados com os faróis. Servem de referência, na escuridão e são imprescindíveis na tormenta. À sua volta contam-se as histórias as mais simples mas também as mais rocambolescas, a par daquelas dramáticas que fazem ainda dos faróis uma necessidade. Este estado de escuridão que temos pela frente, faz prever a tormenta que se avizinha. Mas reza o provérbio popular que depois da tormenta, virá a bonança. O desporto está mergulhado num tipo de escuridão, que mais tem a ver com a essência da sua prática e desenvolvimento. As instituições que os suportam, clubes e associações, também elas envoltas em alguma névoa na reformulação e busca das suas funções. Clubes como veículos, na estrada das grandes prestações desportivas, vocacionando-os em agentes privilegiados do espectáculo desportivo, e dimensionando-os para a vertente profissional; ou por imperativo da sua própria dimensão ambicionar a ser uma referência na formação desportiva, apetrechando-se e reformulando as suas práticas no sentido de valorizar essa vertente. A dimensão e o mercado, podem e são factores condicionantes para o espectáculo desportivo, onde a valorização dos activos a par da publicidade assumem em termos financeiros as grandes mais valias deste negócio. Temos uma luz, este campeonato do mundo, que a classificação pode fazer aparecer uma névoa, como o nevoeiro nos dias de tempestade, e que ditará o futuro deste farol. O futebol nacional com o estatuto de "Utilidade Pública" retirado, tem ainda a luz provinda da nossa selecção e do campeonato do mundo no horizonte. Importa entender que o passado provavelmente não foi preparado nem planeado convenientemente, e que hoje as consequências são quase insuportáveis, no mínimo difíceis de gerir. Restringir o papel das associações e clubes às auto-estradas do espectáculo e às vias de profissionalismo, é crime, pois é reduzir a prática desportiva a menos de dez por cento. Hoje a dimensão constatada é de calamidade, por se ter deixado que alguns eloquentes leigos do fenómeno desportivo tenham confundido os altos valores financeiros envolvidos no espectáculo desportivo, com a significância do valor desportivo, formativo e social do futebol de base. A confusão está lançada e nesta escuridão, estamos todos a olhar para o farol, a nossa selecção, enganados redondamente, que se houver bons de resultados tudo se transformará; caso contrário, até parece que o futebol irá parar. Na verdade, a ditadura do poder irá se reforçar se este farol se mantiver irradiando luz que é só de orientação, e não haverá desgraça nacional se tivermos de substituir este farol por outras estratégias e "tecnologias" talvez até bem mais adequadas vãos nossos tempos. A luz deverá orientar, para traçarmos os melhores caminhos para o futuro.
Rui Mâncio - Director Técnico da AFM