Se não me falha a memória, Jardim já vai na sua terceira viagem a Bruxelas depois de ter sido eleito. Diz que vai participar em comités, em reuniões de trabalho, em debates. Às vezes vai em segredo, outras vezes, como aconteceu esta semana, manda divulgar, à posteriori, uma agenda tão vaga que ficamos na mesma. Admito que posso estar a fazer um exercício de ignorância atrevida. Mesmo assim, não compreendo o que tem Bruxelas que tanto tempo toma ao presidente do Governo Regional. Acabam as campanhas, Jardim vai para Bruxelas; acaba um congresso, Jardim vai para Bruxelas; o Governo toma posse, Jardim vai para Bruxelas; o Governo apresenta uma espécie de programa de Governo, Jardim está em Bruxelas. E andamos nisto há anos, sobretudo nos últimos anos, curiosamente os anos em que Bruxelas começou a fechar a torneira dos milhões que tanto ajudaram a disfarçar a governação regional. Confesso que me espanta tanto tempo perdido em viagens e em aeroportos, ainda mais numa altura destas, em que o centro da Europa apresenta temperaturas bastante baixas. E intriga-me ainda mais que um político que tão bem sabe comunicar, como é reconhecidamente o caso de Jardim, não consiga transmitir, nas sucessivas chegadas de Bruxelas, ideias sólidas sobre o futuro da Madeira no seio de uma Europa que começa a desmoronar-se. A confusão que isto me faz agravou-se ainda mais com a viagem desta última semana. Por uma razão simples: na semana anterior, Bruxelas teve um importante debate sobre o futuro das Regiões Ultraperiféricas na União Europeia, numa válida iniciativa do eurodeputado social-democrata madeirense que fez, no Parlamento Europeu, uma acérrima defesa dos interesses das regiões como a Madeira. E não entendi por que razão, nessa semana importante para a Madeira, Jardim não podia lá ter ido. Outra nota que aguça a minha curiosidade: enquanto o presidente retomou o ritmo das suas semanas europeias, andam os madeirenses às cegas. Tanto os cidadãos, como a Oposição e o próprio Governo a que Jardim formalmente preside. É estranho, mas é verdade. Desde o início do Verão que andamos numa espécie de jogo de cabra-cega sem saber exactamente quem nos vai agarrar primeiro: se a crise, por si só, se a troika, se o ministro das Finanças... a única coisa que sabemos é o que diz a sabedoria popular: o que é para nós os ratos não roem! Entre estes intervalos governativos, registámos esta semana duas assertivas leituras políticas dos que cá ficaram: os 'delfins' Cunha e Silva e Miguel Albuquerque. Primeiro foi o vice-presidente do Governo Regional que, num discurso de frontalidade que se elogia, prevê dificuldades acrescidas. É melhor assim, ser verdadeiro e comedido nos objectivos, do que pensar que ainda se pode governar a partir do adro da Igreja. Tenha Cunha e Silva mais intervenções destas, difíceis, impopulares, mas realistas! Depois foi o presidente da Câmara do Funchal ao admitir, ao DIÁRIO, que quem manda em Portugal é a troika. A autonomia de decisão acabou, disse o autarca. E a Madeira ainda faz parte de Portugal. Volto a arriscar a ignorância atrevida: se os 'delfins' já perceberam que vivemos um tempo difícil, se o Poder o admite à 'boca pequena', se a Oposição já o vem anunciando há anos, se os cidadãos começam a sentir que vamos contra a seta... que faz o presidente tão amiúde em Bruxelas?