Estamos fisicamente onde assentamos os pés, mas pertencemos ao lugar onde se deixa o coração. E o coração é lento, leva tempo a chegar ao presente. Tem o seu ritmo compassado, às vezes descompassado e sempre, quase sempre, em desalinho.
Desta dualidade entre pés e coração, nasce o desconcerto e a certeza de um tempo que nos leva, invariavelmente, ao passado que nos constrói.
Feitas as contas, sinto sempre que pertenço á minha infância, a esse tempo onde o corpo toma forma até preencher o seu lugar no mundo. A esse tempo que também nos molda o espírito, num processo bem mais complicado do que crescer por fora, com pés e mãos feitos para chegar às coisas, a todas as coisas.
Por dentro, ainda me sinto menina, a correr com o meu irmão pelas escadas até a última casa (de partida e de chegadas, sem dados e sem peões). A entrar pela porta com vidro fosco, a sentir o riso da minha mãe e a cauda do cão nas pernas. Borboleta, bicho-de-conta, lagarta e ameixas verdes.
Pela manhã, ainda me sinto a entrar na escola, onde aprendia a juntar palavras para fazer histórias, as nossas e as dos livros. … Recordo a mesa forrada de plástico, por onde escorregaram as minhas primeiras letras. Fugiam do caderno e aterravam nos desenhos da toalha. A cabeça no ar e eu a construir poesia com as letras e as flores da mesa, enquanto o Verão crescia para lá da porta, aninhado num calor de fim de tarde, a secar a terra dos vasos. … O mundo grande para lá da infância a semear a necessidade de aprender a ler mapas. Mesmo que seja difícil perceber onde fica o Sul e o Norte, que baralham os sentidos entre o papel e a realidade. Os mapas demasiado chatos que faziam desviar os olhos para as nuvens que faziam desenhos. Que faziam desviar os olhos para a lua redonda, mesmo que parte dela esteja, por vezes, às escuras. A pensar que é bom crescer. E é. Nem que seja para voltar a sentir aquela vontade infantil de entrar em casa aos gritos com os pés e o coração em sobressalto. Salto, ainda...
Aos pulinhos como na infância. E a minha mãe a gritar: "anda de forma normal! Não corras!" A minha mãe sem saber que normal para mim é a correr. Ao pulos. A andar de bicos de pés. A olhar para as nuvens. A deixar o vento passar entre os dedos. Abrir a boca e engolir um mosquito. Ou será que foi a alma do vento. Ainda a sinto a descer pela garganta, a chegar ao coração. Tropeço no vento e no tempo.
Sou do tempo...