Cerrei, ansiosamente, os olhos por instantes com medo que ao fecharem, levassem no movimento das pálpebras as lembranças que tinha de mim e do mundo. Tirara fotografias às coisas e no seu verso colocara uma legenda pormenorizada, em que assentara o nome dos objetos, cores, texturas. Diante da fotografia do espelho mastiguei solenemente um pedaço de pão, como quem se consagra à hóstia em silêncio e de olhos cerrados deitei a cabeça na mesa. Os objetos envelheceram como nós, aos gemidos e rangidos. Escrevi com batom no espelho - Esta sou eu. O reflexo diáfano era distinto do da fotografia. Envelhecida e aos lamentos. A sua face acusava cansaço e esquecimento porém, componhamos a nossa existência Lídia, a cada dia, sem exageros, sem sofrimentos, com negações. Preservemos o presente porque o futuro é incerto e arrojado. Sentemo-nos e desenlacemos as mãos e o coração tranquilamente. A imagem no espelho imitava-me nos movimentos, gesticulando sem voz. Via no espelho uma rara semente de vontade que coabitava num calmo contentamento, numa tarde de Verão outonal. A mesa e o espelho acusavam uma certa rigidez e aspereza, como se tivessem morrido e os viventes tivessem procedido à embalsamação dos seus corpos para a exposição de fotografias numa galeria de arte em Nova Iorque, sem a mínima comiseração pelos cadáveres mobiliários. O reflexo, parcialmente humano, jazia num estado de insónia e vigília tormentório. As fotografias não correspondiam à realidade. Eram diferentes, estáticas e paradas num tempo passado que as tornou em templos de beleza, captadas num presente efémero e logo tornadas em passado intocável. Não me lembro de mais nada. Esqueci-me de catalogar os materiais com que legendei a minha memória.

Fernanda Castro, Colaboradora da Associação Académica da UMa