Um carro, uma catarata. Um beijo, tamanha tumultuada água. Bud e Deannie não resistem, nem desistem, por enquanto. Estamos no Kansas, em 1928, mas poderíamos estar aqui, agora. "Espeldor na relva", um brilhante filme de Elia Kazan (de 1961) tem como protagonistas os belíssimos Natalie Wood e Warren Beatty. Em 124 minutos de puro 'technicolor' assistimos, aturdidos e encantados (é possível) à paixão interdita e furtiva de Bud e Dennie. Ambos sucumbidos. Sob a sombra do crash de '29, esta é uma história de perda e desencanto; e, no entanto, quase feliz. Na sua cor e no seu esplendor, o amor. Num dos cartazes do filme, Natalie abraça-se, de olhos fechados, a um demasiado jovem Waren Beatty. Outro cartaz e somos tocados pela história (o coração de todas as vidas, sem tempo ou lugar): "Quer viva na pequena cidade da maneira que eles vivem, ou numa outra cidade, talvez isto lhe esteja a acontecer... Talvez (se for mais velho...) se lembre... Quando, de repente, um beijo deixa de ser, para sempre, uma brincadeira de crianças, ele torna-se surpreendentemente assustador e perigoso". Na cena final do filme, Deannie visita a casa de Bud. É uma casa térrea, ele está agora casado. A sua (outra) mulher espera um filho e oferece-lhe chá. Deannie dispensa-o educadamente e recolhe ao carro onde a mãe a espera. Em voz off, como se essa fosse a legenda audível do que passou e não regressará - apesar de cada primavera -, ouve-se um poema de William Wordsworth: "A luz que brilhava tão intensamente foi agora apagada dos meus olhos e embora nada possa devolver os momentos do esplendor na relva e de glória nas flores, não sofreremos; melhor, encontraremos força no que ficou para trás." Deannie quase esboça um sorriso, de costas, ao partir do filme e de nós face ao ecrã. Bud não se move. Ruy Belo - um extraordinário poeta português recentemente celebrado na Fundação Calouste Gulbenkian - viu e foi imensamente tocado pelo filme. Num poema seu com o título do filme - incluído no livro Homem de Palavra[s] - a figura de Deannie aparece e desaparece, e reaparece, ante a inocência, a felicidade e a fatalidade de um (todo o) amor: "Eu sei que Deannie Loomis não existe mas entre as mais essa mulher caminha. A sua evolução segue uma linha que à imaginação pura resiste. A vida passa e em passar consiste e embora eu não tenha a que tinha ao começar há pouco esta minha evocação de Deannie, quem desiste na flor que dentro em breve há-de murchar? (E aquela que no auge a não olhar que saiba que passou e que jamais lhe será dado ver o que ela era.) Mas em Deannie prossegue a primavera e vejo que caminha entre as mais". Caminha.
Diana Pimentel