Descíamos a montanha devagar, enquanto o cheiro da terra, a brisa do vento e o aconchego do sol nos acompanhavam, a mim e ao meu pai. Observávamos as flores, as árvores, deliciávamo-nos com o chilrear dos pássaros e entre o silêncio e o entoar de algumas melodias, a felicidade acompanhava-nos. Não era preciso muito, aliás não era preciso nada, éramos apenas nós os dois e a natureza. Não me recordo das palavras, sei que existiam mas não as tenho na memória. Das canções sim, lembro-me de todas, faziam parte da história de vida do meu pai e eu gostava das suas histórias. Havia sintonia, entrega, carinho e cumplicidade. Havia amor, mas um amor sereno e tranquilo. Nada era obrigação. Tal e qual as árvores, o vento, o sol, as flores, a terra, os animais… Várias vezes passamos junto à casa do Eça de Queiroz, onde foi escrito a "Cidade e as Serras", e parámos para contemplar a beleza do Douro, a sua magnitude e serenidade. Beleza única, capaz de soltar emoções e inspirar o mais comum dos mortais. Sim nessa altura a morte ainda não tinha entrado na minha vida, talvez ainda acreditasse na imortalidade. Aquele era o meu mundo, o meu planeta preferido. Quando chegava a hora de voltar à cidade ficava triste e pensava que voltar, era sim, uma obrigação. Gostava da escola e dos amigos, mas o meu coração ficava apertado na hora da despedida. Regressava em quase todos os períodos de férias e o regresso era sempre um retorno ao que sentia como verdadeiramente importante. Tantas vezes, enquanto os meus pais e avós se ocupavam com os seus interesses, eu corria pelos campos, deitava-me na relva, fechava os olhos e apenas ficava ali a ouvir o ruído do riacho e o coaxar das rãs. Também tinha amigos lá da terra com quem brincava brincadeiras do campo. Cozinhava comida de verdade, em potes de ferro na lenha e ajudava os trabalhadores na altura das vindimas. Muito raramente e com a permissão do meu avô cheguei a pisar uvas no lagar, integrando o ritmo dos movimentos do grupo assim como os seus cantares. Outras vezes ficava com as senhoras a desfolhar o milho na eira e de novo a acompanhar os seus cantares, tendo direito à merenda, tão saborosa, do pão fresco e dos frutos acabados de apanhar das árvores. A água sabia a água e o pão sabia a pão. À noite com o céu estrelado, e no tempo de verão, o fresco acariciava o corpo e trazia o sono que acontecia sem qualquer esforço. No Inverno, em noites de tempestade, o medo aparecia junto a cada trovão e aliviava com a beleza dos relâmpagos. À medida que a tempestade se afastava, chegava o cansaço e o sono de novo profundo e tranquilo. Foi um privilégio ter tido este espaço na minha infância. Foi um privilégio crescer no meio da natureza e senti-la como fazendo parte de mim. Foi um privilégio guardar tudo isto na minha memória. É um privilégio abrir a caixinha sempre que preciso e sentir-me feliz por nada ter desaparecido. Com o tempo muita coisa mudou, perdi pessoas que amava, perdi espaços onde vivi, mas na verdade não perdi a minha identidade, a minha história, o lugar onde todos os dias me encontro comigo própria. Faça chuva ou faça sol, o meu coração está onde a natureza se encontra com a vida humana, esse é o meu espaço de conforto. Há quem lhe chame VIDA…
Manuela Parente