Não é preciso ser adivinho para se prever que a próxima Assembleia Legislativa da Madeira vai ser pior que a anterior. Que já foi pior que a anterior. E são vários os argumentos que permitem sustentar esta singela previsão. Faça o Leitor o favor de imaginar o seguinte exercício: juntar na mesma sala pessoas tão 'amistosas' como Jaime Ramos e José Manuel Coelho. Agora acrescente mais dois nomes de peso: José Pedro Pereira e José Luís Rocha. Estes são apenas quatro exemplos de deputados que prometem aquecer a Assembleia. Imagine o Leitor quando o delicado Rocha se dirigir ao afável líder da JSD em termos menos convencionais (ou o contrário)... vai ser o bom e o bonito! Além destes deputados em particular, entre outros, há ainda o ambiente geral. É que a partir da próxima semana, a maioria do PSD será bem mais curta do que os social-democratas estão habituados. Logo, o PSD vai ter necessariamente mais trabalho para travar uma Oposição mais diluída, mas em crescendo, como é o caso do CDS-PP e do PTP. Se antes já havia grande agressividade quando a maioria era bem mais acentuada, agora perspectiva-se uma ainda maior clivagem entre Poder e Oposição. Outros argumentos de peso: a crise, a falta de dinheiro, as poucas obras, o desemprego. Tudo elementos que prometem briga da grossa, porque a Oposição vai cobrar o que o Poder prometeu e não vai poder cumprir, porque o dinheiro não é elástico e acabaram-se as facilidades da tia rica da Europa e da prima remediada de Lisboa. Agora é a doer e a impopularidade tem custos a que as folgadas maiorias social-democratas não estão habituadas. Nunca estiveram. Mas há mais: as divergências profundas entre o PSD de cá e o PSD que manda no País, ou entre o PSD e o PP de cá, que também faz parte do PP de lá. É no meio desta barafunda que vão estar os madeirenses e os seus interesses. Adivinha-se a propensão para o insulto, a brincadeira, a provocação, a calúnia e a difamação. No fundo, um novo circo que promete fazer uma longa temporada, embora talvez mais curta do que o prazo que está contratualizado. Antes de ser eleito presidente da Câmara de São Vicente, Jorge Romeira disse que a campanha, coisa a que não estava habituado, seria uma tourada. A frase fez caminho e atrevo-me a fazê-la minha, mas em relação à próxima Legislatura. Muito sinceramente, acho que vamos ter uma Assembleia transformada numa tourada. E, espero estar enganado, mas os primeiros sinais não vão demorar muito. No meio do triste espectáculo que nos espera, acredito que também haverá bom-senso de muita gente. E esta semana registei um sinal importante: a confirmação do deputado Roberto Silva, eleito pelo PSD, de que vai prescindir da imunidade parlamentar para responder no caso da palmeira que fez dois mortos no Porto Santo. Parece óbvio que um Político a sério só teria este caminho. Mas também é óbvio que vários outros políticos seguiram a vereda fácil de usar a imunidade para casos muito mais simples. Resta ainda outro sinal importante e que vem do lado do Governo: a criação, na orgânica agora reduzida, um espaço para os Assuntos Parlamentares. Não percebo por que razão os Assuntos Parlamentares são entregues a Conceição Estudante e não a um governante político como Cunha e Silva ou Manuel António Correia. Mas já me daria por satisfeito se a secretária do Turismo tivesse um tempinho para fazer o que o Governo Regional nunca fez: ter o mínimo de respeito pelo Parlamento regional. Isso obriga a responder, séria e atempadamente, aos deputados e a ir regularmente ao Plenário. Coisa a que os governantes regionais têm sido alérgicos, com a curiosa excepção de Ventura Garcês, o mais técnico e menos político dos ainda secretários. Independentemente do que aí vem, o mais importante é que quem manda comece a mandar. Tenho a sensação de que estamos sem governo efectivo desde o Verão. Foram as férias, foi a campanha e agora o inesperado mês de reflexão do presidente reeleito. Alguém compreende tanta calmaria em tempos tão conturbados? Eu não!