Em 1807 as tropas francesas comandadas por Junot atravessam o norte de Espanha, entram em Portugal e instalam-se em Abrantes. Exaustas, lá recuperam o ânimo e as forças. A Casa Real partira para o Brasil e o País ficara sem Rei nem Roque, à espera que os ingleses um dia chegassem. Como eles tardavam e as tropas francesas não eram molestadas, por todo o Reino começaram a surgir vozes indignadas, considerando que tal passividade era um acto de covardia nacional. Para sossego dos invasores e vergonha dos portugueses, dizia o Povo: "tudo estava como dantes, no Quartel-general em Abrantes". Curiosamente, fazendo fé no que diz o DN do passado dia 30 de Outubro, o Dr. Paulo Fontes terá usado este provérbio popular, como comentário ao novo Governo da Região. De facto, assim parece! Mas... Cumprido que está o calendário de mais umas eleições regionais e assente o pó que excitou a garganta de alguns e toldou o senso de outros, tudo parece regressar calmamente ao passado. Embalado pela voz de Tony Carreira e suspenso em promessas coloridas, o futuro escolhido pelos Madeirenses, parece querer regressar ao aconchego dos últimos trinta anos, deixando tudo como dantes … como no Quartel-general em Abrantes! Mas para quem quiser ler esse futuro nos astros, lá encontrará sinais de mudança. Os Vencedores, já não celebraram com o esplendor de outrora esta vitória apertada. Preocupados, sabem que ventos fortes e marés traiçoeiras se escondem no negro horizonte. Marinheiros acomodados a águas paradas, há muito que não conhecem a agitação das ondas, onde é bem mais difícil manter o rumo desejado que a bússola da Autonomia aponta. Escondendo algum desassossego, os Vencedores pressentem que o anunciado fim de uma liderança carismática e omnipresente, trará consigo tempos incertos, onde os Delfins verão finalmente, a luz do dia. Até lá, por detrás da cortina, nos corredores do Poder, nos matutinos regionais ou nas mesas do Apolo, será feita a História desta Ilha! Alguns dos Vencedores, por pérfida denúncia, serão acusados de infiéis só porque o seu olhar mais livre e solto, escorregou ternamente para a direita ou teima em poisar nas páginas amaldiçoadas do DN. Outros, mais próximos do líder, serão vigiados dia e noite como potenciais "Brutos" em quem César um dia confiou. Há ainda aqueles que apenas querem estar avisados, para poderem escapar pela porta secreta de algum offshore. Fiéis aos seus interesses e encostados ao Poder, há também os oportunistas que, em bando, estarão sempre em trânsito e atentos à direcção do vento. Vieram da esquerda ou da direita e para lá regressarão se o vento do Poder os empurrar. E os vencidos? Uns, sem honra nem gloria, desapareceram em combate. Outros, de derrota em derrota, parados no meio da ponte, continuam à procura de um D. Sebastião capaz de unir as tropas dispersas e que faça esquecer trinta anos de sucessivos Alcácer-Quibir. Todos sabemos quem é esse D. Sebastião, mas também todos sabemos, que há quase trinta anos, ele guardou o seu destino para outras artes. Com sabor a vitória, os "menos vencidos", souberam semear numa sociedade conservadora o desejo de mudança e colheram os frutos. Ex-Vencedores desiludidos e cansados dos sócios trauliteiros, passaram-se acidentalmente (?), para as hostes desta nova "alternativa", ainda frágil, mas moderada, educada e bem gerida. Mas quando todos nós, na Madeira nos Açores ou no continente, estamos decididos a travar mais uma dura batalha, preocupa-me o que há mais de duzentos anos, Arthur Wellesley (Duque de Wellington) que derrotou os tais franceses que estavam em Abrantes, disse um dia ao seu Rei: " … os Portugueses são os melhores soldados do mundo! Mas os seus Generais … são péssimos!"

Manuel de Brito