Pairava sobre aquela tomada de posse um fantasma, não do passado, como seria lógico, mas o fantasma do futuro. Como se sabe, os fantasmas dissimulam a sua presença, deixam sinais, batem portas, vivem nas correntes de ar, nos medos das pessoas e nas suas cabeças. Como cenário foi escolhido o salão nobre da Assembleia Regional que serviu de redoma para a fuga à realidade. Aproveitando a tolerância de ponto e os directos televisivos, tentaram envolver os madeirenses numa ficção que transbordava no discurso. Mas o fantasma do futuro estava lá, fez-se sentir no momento alto e solene do discurso de fuga à realidade, com subterfúgios discursivos. Falou-se de tudo menos da realidade da Madeira. Os problemas ausentaram-se da sessão solene, a realidade fugiu, mas os responsáveis pela situação estavam presentes, embora só se tenha falado dos ausentes. A sala era trespassada por um sentimento inexplicável, que só quem lá estava sentiu: uma tristeza vaga, um caminhar desalentado e sem destino, a inevitabilidade indecifrável do futuro, em suma, a impotência perante a nova realidade. Se um discurso marca um caminho, um rumo e uma estratégia - entenda-se, um caminho para tirar a Madeira da situação que eles próprios criaram - se um discurso marca um caminho, este foi um não discurso. A prova provada de que o futuro mete medo a este governo foi o facto de durante todo o discurso, cada palavra, cada frase e cada gesto tentaram esconder e dissimular as nossas dificuldades. Mas durante toda a cerimónia pairava sobre aquelas cabeças o espectro do desemprego, da pobreza, da emigração, da falência das empresas, do plano de resgate. Tão presentes estavam estes problemas, e a prova disso mesmo é que deles não se falou. Inicia-se assim mais 4 anos de governação PSD com a desorientação e a falta de estratégia. Dir-se-ia que, depois do não discurso, temos um não Governo, logo no momento em que a Madeira mais precisa.
Victor Freitas, Deputado do PS-M