Depois de 6 anos a visitar a World Travel Market como membro do governo com o propósito de comunicar Portugal, este ano voltei a Londres na qualidade de simples cidadão. Interessante a percepção dos anos passados com protocolo, com agenda repleta de reuniões, de solicitações, de atenções, em oposição ao ano corrente, onde todo o programa não teve protocolo, a agenda era livre, mas não foi por isso menos interessante. Perguntavam-me no final do primeiro dia se não estava cansado, uma vez que para além do que tinha feito durante o dia, tinha viajado de manhã de Lisboa. Respondi com sinceridade que o cansaço equivalia a 10% do cansaço do ano anterior. Quando se exerce uma função pública executiva numa área onde comunicar e contactar gente assumem uma grande importância, a disponibilidade física e mental é essencial. É certo que a perspectiva felizmente confirmada de poder contactar lugares que nos transformam, viagens que acrescentam e pessoas que nunca mais esquecemos revelou-se uma experiência muito, muito enriquecedora. Mas como em tudo na vida, há um tempo para terminar. E ainda bem que termina. Digo ainda bem porque a perspectiva de desligar o telecomando, reconquistar a nossa autonomia e reconstruir a nossa identidade é das experiências mais gratificantes enquanto ser humano. Acreditem! Chamo o tempo do telecomando àquele tempo em que tudo é facilitado, em que toda uma equipa excepcionalmente competente trabalha para cumprir prazos e metas. É o tempo das solicitações para tudo e para nada. É o tempo das dezenas e dezenas de chamadas telefónicas a mais. É também o tempo onde a identidade do ser humano conta pouco. Conta sobretudo o estatuto, a graduação e a presença. É assim, e vai continuar a ser assim. É a vida, ou de forma sucinta, são assim as ligações de poder. Nesta nova fase, comentava um familiar muito próximo " vais perceber como muda a tua relação com o mundo próximo". Chapeau! Esclarecido, percebo que acima de tudo, seja no público ou no privado, temos é que continuar a ser vendedores. Bons vendedores. Nunca a venda, o pós-venda, os nossos clientes, o serviço prestado assumiram um carácter tão determinante no nosso futuro colectivo. Podemos ser bons governantes, bons financeiros, bons marketeers, bons projectistas, bons técnicos, mas temos que sobretudo saber comunicar: sejam os nossos produtos, a nossa região ou o nosso país. Gosto de recordar as palavras proferidas por Peter Mendelson, antigo comissário europeu, que referiu um dia que uma venda é uma narrativa que deve ser genuinamente verdadeira para que possa ser repetida muitas vezes. Sendo que o caminho se constrói a andar, façamo-lo vezes sem conta!
Bernardo Trindade, Director de Projectos Porto Bay