“ E aos sétimo dia Ele descansou”. Não foi um bom augúrio quando o presidente do Governo Regional levou a máxima divina ao extremo e tirou não o sétimo dia, mas os quinze dias seguintes para um chamado descanso reflectivo. Fez-se silêncio sobre a Terra, ou melhor sobre este bocadinho de terra plantado no Atlântico. Um mutismo insuportável à luz dos acontecimentos.

Nas aparições, poucas, aos que o elegeram disse que só falava na tomada de posse, mas não conteve a incontinência (verbal, entenda-se) e dois dias antes da data prometida, quebrou o jejum das palavras públicas e falou, avisou e ameaçou. Preferiu fazê-lo pelo megafone mediático a mil quilómetros de distância, em casa evitou os “assuntos domésticos”.

Pelo meio ainda apresentou um novo Governo velho, com os mesmos de sempre. Juntou as pastas, baralhou e voltou a dar.

Os sinais não indiciavam nada de bom, é certo. Mas quando os líderes carismáticos atingem um certo endeusamento, que leva as pessoas a reelegê-los anos a fio, o comum mortal espera pelo menos alguns rasgos messiânicos.

Começou com a inexplicável tolerância de ponto, re-baptizada dispensa ao serviço, e culminou num discurso longe da realidade e completamente a leste do paraíso. Alberto João Jardim preferiu assobiar para o lado. Não disse como ia governar com menos poderes e com controle apertado de Lisboa, apelou antes a mais autonomia. Humor negro, talvez.

Não falou olhos nos olhos aos madeirenses, que acreditaram nele para ajudar a sobreviver no momento de dificuldade que se avizinha. O maior dos últimos tempos. Nem uma palavra de conforto aos funcionários públicos que vão ficar sem parte do seu rendimento nos próximos anos, nem uma palavra de alento a quem está sem emprego. Nada sobre a perda de subsídios, que são perda de poder de compra.

Não se pedia uma intervenção a fazer lembrar o livro do Apocalipse, mas esta dose de irrealidade é preocupante e já ninguém acredita no milagre da multiplicação do pão. É que a ‘fé cega’ não é coisa da política, é do domínio religioso, mesmo quando os políticos se endeusam.