Fábio Henriques Ando muito preocupado com o nome do novo lobo-marinho. Decidiram Chamá-lo Facebook. Sinceramente, já adivinhava que a nossa sociedade andava com uma espécie de doença cibernética incurável, mas nunca me tinha passado pela cabeça tanta desconsideração pelo animal em causa. Se é verdade que nomes como Jervásio, Anacleta etc, já me repugnam, Fecebook atingiu-me bem no centro da minha humana visão de mundo. Não nego a evidência da utilidade das novas tecnologias, porque também as utilizo diariamente. Mas esta mania de querermos transformar tudo em ciberespaço, em combinações binárias, em número, vai inevitavelmente desaguar no fim do que chamamos civilização humana. Quando os nossos jovens passam o serão compenetrados com os computadores nos seus quartos, alheios à família e ao mundo, o que resta da instituição familiar são trocas de palavras de circunstância, enquanto a comida aquece no microondas. Que é feito da troca de experiências e afectos ao final de um dia de trabalho ou de estudo, que é feito de um passeio de fim-de-semana para apreciar o ar puro, a beleza de uma planta, o pôr-do-sol na marina da cidade. Diariamente repetem-nos que a nossa crise é económica. Eu digo claramente que não. A nossa crise é derivada da desumanização perpetuada por um sistema democrático, que olha a números e não a pessoas. Vivemos numa sociedade acrítica, de normalidades impostas, veiculadas pelo arauto das novas tecnologias. Vivemos iludidos que a nossa experiência cibernética é uma experiência real. Mas o facto, é que estamos mais longe do outro, mais longe da comunicação, mais longe do confronto saudável, directo, carne a carne, olho a olho. Uma sociedade nunca poderá ser verdadeiramente humana, solidária, fraterna, enquanto não voltarmos a sentir a respiração do outro, a mão do outro, o cheiro do outro. Enquanto estivermos on-line e fugirmos ao contacto carnal, directo, duro, nu e cru da confrontação pessoal, nunca seremos mais que números e estatística. Deixo uma citação de António Alçada Baptista: " A nossa gargalhada terá o valor de um grande gozo divino contra a seriedade, a competência, a chatice metafísica do computador que tende a passos largos para devorar, na sua omnívora e omnipotente omnipresença, o que resta da nossa humanidade." E já agora, se fosse o lobo-marinho ponha-me a milhas, para a eventual possibilidade de me rebaptizarem.