Fátima Nascimento Uma amiga perguntava-me que mal teria feito a uma pessoa para que ela se manifestasse tão ruidosamente contra si. Estava confusa e revoltada. Nunca na vida fizera mal a ninguém! E muito menos àquela pessoa que agora dizia mal dela, mesmo sem a conhecer. Ouvi as suas queixas, sabendo bem do que falava. Tal como ela, também eu já passara por situações semelhantes. No fundo, a mesma ignorância. O que levou aquelas pessoas a fazerem-me mal? Ainda hoje estou à espera da resposta a esta pergunta. Ainda pior, como justificar um ódio que muitas pessoas classificam de morte? Eu também não fizera mal a essas pessoas ou a quem quer que seja. Como compreendia a sua indignação! Contei-lhe alguns episódios da minha vida. Só os mais ligeiros. Tão pura como é, ficou chocada com atitudes que, para mim, foram as mais suaves. Não compreendia a maldade gratuita! Senti a mágoa na sua alma e fiquei arrependida de lhe ter contado esses episódios da minha vida. Não tinha o direito de lhe provocar aquele desgosto. Não, a ela! Mesmo ao telefone, a sua voz soou diferente quando repetia incrédula o que lhe contara. O que para mim nada era (já estava acostumada) para ela foi uma dor que lhe cravei no peito. Senti-me encolher. O que fizera eu? Mas eu já descobri a justificação para actos nefastos na vida de pessoas assim. Não há, pura e simplesmente, razão para tal a não ser uma - a maldade. Já há muito descobrira que não era preciso as pessoas terem motivos para nos odiarem. Odeiam-nos e pronto. Daí a fazerem-nos mal, seja este de que forma for, é só um passo. Se o ódio e a inveja têm algo em comum, é que não deixam as pessoas que os sentem indiferentes às vítimas destes sentimentos. Têm de fazer algo que despeje esses sentimentos sobre as pessoas visadas. Aliviam assim o incómodo que estes sentimentos lhes provocam. Pode não haver razão para tal, mas o sentimento está lá. Contudo, para cada acto mau, há sempre um bom que, de certa forma, corrige aqueles. E foi o que aconteceu com esta minha amiga. Ao ver a sua identidade ultrajada, ela conheceu imediatamente uma atitude que iria anular aquela: a pessoa por quem fora barbaramente atingida, fê-lo precisamente a uma pessoa que a conhecia, por sinal, bastante bem. Imagino a confusão da pessoa mal intencionada, quando ouviu uma voz levantar-se em defesa da minha amiga. Como se tal não bastasse, ainda se vai ver confrontado com um processo em tribunal por difamação. E, como se não bastasse, depois de falar com este, caiu outra vez no erro de falar com outra que também a conhecia. Nunca a minha amiga pensou na sorte que tinha por ter amigos de tão boa índole, que se mantiveram fiéis a ela durante estes anos todos! Como se tal não bastasse, são também pessoas de posses, ambas, altamente posicionadas na hierarquia social portuguesa. Ora, as pessoas que recorrem à calúnia para atingirem as pessoas visadas são também, de uma forma geral, muito cobardes. Faço ideia do resultado que a atitude destas duas pessoas, tão íntegras e boas, tiveram numa pessoa tão medíocre. Deve estar tão aterrada que não deve sair de casa nos próximos tempos. Pelo menos, até lhe passar o medo! Pessoalmente, sinto-me feliz por esta minha amiga. Tal como ela, também me concentro na índole da pessoa não me interessando nada mais num ser humano. Mas, agora, não posso deixar de pensar como estas pessoas que, materialmente tanto têm, podem fazer diante de outras mal intencionadas, colocando-as no seu lugar! Sim, porque se não fossem tão poderosas social e financeiramente, a pessoa mal intencionada nunca ligaria importância alguma às suas palavras e à posição tomada. Essa é que é essa! Ao ponto a que nós chegámos!