Quem não se lembra do jogo da cabra-cega: um, com os olhos tapados; os outros, vivaços, a enganá-lo de toda a maneira e feitio, só para não se deixarem apanhar. Quem mais ganhava era quem melhor enganasse. É o que se passa aqui. Há muito que se desconfia que vale tudo para manter o poder; há algumas semanas começámos a conhecer uma pequena parte das aldrabices e vigarices para o conseguir. Dívida e 'buraco orçamental' fazem parte do nosso dia-a-dia. Mas a gravidade da situação não se resume ao estado das finanças, nem à imensidão da dívida, nem à discussão sobre se o dinheiro foi bem ou mal usado. É pior, é a trafulhice de esconder documentos, de aldrabar as contas, de ser desonesto na informação - um verdadeiro crime, assumido por quem se acha acima da lei e das obrigações de um Estado de direito. O governo da República foi apanhado de surpresa quando as contas regionais começaram a revelar números debaixo da mesa, dívida desconhecida, obras por facturar; aflito, quanto mais não seja porque os compromissos internacionais não se compadecem com tanta aldrabice, prometeu para antes das eleições uma auditoria e um plano para solucionar o problema. Mentira. Não houve auditoria, só um relatório que se limitou à soma das contas que o governo regional apresentou - não era preciso tanto trabalho; uma máquina de calcular tinha chegado. O resto, o que estava escondido, escondido continua. A ver vamos até quando, quando escondido continua o valor das obras mais recentes. Também não houve plano para solucionar a situação. Não convinha apresentá-lo antes de domingo porque ele vai ser muitíssimo duro. Certo é que os desempregados aumentam, as empresas vão fechar, a vida vai piorar, a fome e a miséria estão, já, a entrar na casa de muitos. Depois das eleições, é que saberemos quanto nos vai custar esta aventura em que o governo do PSD nos meteu. Seremos penalizados pelo comportamento do governo, como se cada um de nós esteja marcado pelo selo da governação, como se todos fossemos trapaceiros, aldrabões, desonestos e irresponsáveis. Manhoso, e depois de ter metido os pés pelas mãos, o presidente do governo foi à procura dos 'papéis' que mais gosta de desempenhar: o de vítima e o de salvador. O de 'vítima' porque só quis o melhor para todos! Mas esconde que se tivesse usado com critério os dinheiros públicos, se tivesse havido rigor e seriedade, se não tivesse beneficiado amigos e compadres, teria feito muitíssimo mais. O de 'salvador' porque a solução 'é' ele e sem ele não há saída. E quem é que se senta para negociar com uma pessoa que não tem palavra, em quem não se acredita porque mente e aldraba sistematicamente? Aldraba quando anuncia 200 (!) novos caminhos; quando diz que vai manter tudo como está; quando garante que não há aumento de impostos; quando manda dizer aos deputados que a dívida era de 2 mil milhões e afinal já tinha ultrapassado os 5 mil milhões. Aldraba, ponto final. Um destes dias, na Calheta, uma senhora muito aflita contava que o Alberto João tinha dito que eles (suspeito que seria Lisboa) iam tirar 3 meses da reforma e que era preciso uma maioria absoluta para ele ter força para exigir a reforma toda. É preciso ser muito vigarista, para chegar a este ponto! O presidente do governo é o primeiro culpado por toda esta situação; está habituado a resolver tudo com berros, ameaças de independência, insultos e ordinarices que, vá-se lá saber porquê, impressionam tanta gente. Mas desta vez cheira-me que não vai ter sucesso - é que aos credores e entidades internacionais importa pouco a berraria de quem se comporta desta maneira. E é claro que vai assinar o que lhe puserem à frente porque, caso contrário, não recebe dinheiro. E esta criatura, mais o seu governo e os seus amigos não sabem viver em dificuldades. Quem nos trouxe a esta situação pode tirar-nos dela? Não! Acreditar nisso é acreditar que o ladrão que nos assaltou a casa vai, de boa fé, participar nas buscas para recuperarmos o que ele nos roubou. No jogo da cabra-cega há sempre uma altura em que, fartos de ser gozados e enganados, atiramos a venda para o lado e decidimos querer deixar de ser cegos. Há sempre uma hora. Para nós, para a Madeira, essa hora começa a 9 de Outubro. Basta querer.

Violante Saramago Matos