Aquela luz era de um Opel Corsa, in "Kizombó Português - Roberto Leal & Rui Unas". Fernando Mora Ramos, publicou esta semana no jornal PÚBLICO um artigo de opinião intitulado "Bilheteira, reportório e missão artística". Na sua crónica fala de públicos, política de reportório e uma terceira questão absolutamente decisiva nas artes de palco, o projecto e a liderança artísticos. O artigo tem por referência os Teatros Nacionais mas, no meu entendimento, bem podia servir de bússola na atribuição de apoios e financiamento das artes de palco em geral. No teatro, na dança ou na música qualquer uma destas questões é incontornável, se for um projecto para levar a sério. Sobre a política de públicos, entendo que mesma não se deve limitar ao serviço educativo com as escolas, a fruição do bem artístico, e consequente aumento de público, passa pelos interessados se preocuparem em promover o acesso aos "códigos conceituais" das obras e incluírem na sua agenda artística a formação humana das pessoas que compõem os públicos ao invés da sala cheia com plateia subsidiada. Em relação ao reportório, estamos a falar de escolhas para peças, bailados, concertos e recitais, opções que decorrem necessariamente de preferências artísticas cuja qualidade, coerência, dinâmica e criatividade devem ser sempre passíveis de avaliação, por parte de quem paga e de quem vê. O que nos leva ao último ponto: o projecto e a liderança artísticos. Discutimos frequentemente a qualidade de um espectáculo mas raramente nos propomos questionar o projecto e a liderança artísticos. Aí encontramos o cerne da questão porque de nada serve mudar a estratégia se a visão continua a mesma. Até podem ver uma luz, mas corre-se o risco de ser apenas um Opel Corsa, desgovernado.
Natércia Xavier, Formadora